Pesquisa define prioridades em todo o mundo
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de novembro de 1999
por Liana John 
Campinas,SP, 27 (AE) - Uma centena de cientistas de 40 países trabalhou, nos últimos 3 anos, na definição dos 25 hotspots de biodiversidade, descritos no livro da Conservation International, CI. Entraram na lista, os ecossistemas que já tiveram 75% de sua área destruída ou alterada pelo homem e possuem um mínimo de 1.500 espécies de plantas endêmicas, correspondente a 0,5% do total de plantas conhecidas, que é 300 mil.
Dezesseis dos 25 hotspots estão nos trópicos. Oito possuem vegetação temperada ou florestas secas e apenas um, o Karoo das Suculentas, na áfrica do Sul, está em região árida. O nome, suculentas, deriva, inclusive da principal característica das plantas típicas deste ecossistema, capazes de armazenar água em suas folhas para resistir ao clima.
O primeiro hotspot em biodiversidade é o dos Andes Tropicais, no oeste da América do Sul. Ali se concentram 45 mil espécies de plantas, 20 mil das quais endêmicas. Os Andes tropicais ainda tem o maior número de espécies de aves, (1.666) e de anfíbios (830). Em seguida, com 25 mil espécies de plantas e 15 mil endêmicas vem a região da Sunda, no Pacífico. E depois vem o Mediterrâneo, também com 25 mil espécies de plantas, 13 mil das quais endêmicas. A Mata Atlântica brasileira vem em quinto lugar, com 20 mil espécies de plantas, sendo 8 mil endêmicas e 261 espécies de mamíferos, 160 dos quais endêmicos. O Cerrado brasileiro ocupa o 11o lugar, com 10 mil plantas, 4,4 mil das quais endêmicas.
A mais alta diversidade em mamíferos (551) está nas Florestas da Guiné, no oeste da áfrica, sobretudo pela grande quantidade de roedores. Em segundo lugar vem as montanhas do Centro-Sul da China, com 300 espécies de mamíferos. O recorde em diversidade de répteis pertence à Mesoamérica, onde vivem 685 espécies, mais da metade das quais endêmicas.
Nos 25 hotspots também vivem muitas espécies de animais ameaçados de extinção. Cerca de 81% de todas as aves e 57% de todos os mamíferos ameaçados de extinção estão nestas áreas.
O conceito de hotspots foi criado pelo ecólogo inglês Norman Myers, em 1988, quando identificou 10 áreas prioritárias para a conservação em todo o mundo, agora acrescidas de outras 15, em estado igualmente crítico. A expectativa dos conservacionistas, com o lançamento do livro - e de um vídeo que o resume - é ajudar as autoridades de cada país a desenhar uma estratégia de preservação da biodiversidade mais precisa, focalizando os recursos onde são mais urgentes.
"Precisamos reconhecer o valor das obras da natureza", alertou Russell Mittermeier, presidente da CI. "Se alguém for ao Louvre, em Paris, ou ao MASP, em São Paulo, e começar a queimar os quadros, causará comoção. Então, porque não há reação quando se queimam florestas como as da Indonésia, Madagascar ou Brasil, tão valiosas quanto as obras de arte humanas e ainda mais difíceis de reconstituir?" Em conjunto, algo em torno de 888 mil km2 dos hotspots está sob alguma forma de proteção, ao menos formalmente. Isso representa apenas 5,1% da extensão original dos hotspots e mas chega a 41% do que ainda resta intacto dos hotspots. O objetivo da iniciativa da CI é garantir a integridade dos outros 59%, antes que desapareçam. A recomendação dos conservacionistas à comunidade internacional é a adoção de políticas de "desmatamento zero" e "perda zero de espécies", antes que seja tarde demais.
O livro "Hotspots de Biodiversidade" terá uma tiragem inicial, em inglês, de 20 mil exemplares. Foi produzido pela Sierra Madre e editado pela Cemex, com sede no México. Está previsto o lançamento de uma edição brasileira, em fevereiro de 2.000, patrocinada pelo Hotel Transamérica-Comandatuba, da Bahia
e pelo Grupo Agropalma, do Tocantins.


