São Paulo, 07 (AE) - O barulho produzido em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) em algumas horas do dia é semelhante ao de um jato em vôo rasante. Uma pesquisa inédita feita pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) detectou que, em alguns momentos, a UTI pediátrica registrava 110 decibéis de ruído, apenas dez a menos do que alcança um avião.
"É incrível que isso ocorra num local preparado para o doente se recuperar", avalia o professor-adjunto do Departamento de Pediatria da Unifesp e autor do estudo, Werther Brumow de Carvalho. Além de ser uma fonte de estresse desnecessária, o barulho causa no paciente uma série de reações físicas, que acaba debilitando ainda mais o estado geral dele. Entre os problemas registrados, estão o aumento da frequência cardíaca e a dificuldade de conciliar o sono.
Carvalho decidiu iniciar a pesquisa depois de conversar com um paciente da UTI pediátrica. "O menino, de 7 anos, disse que as noites em claro foram a pior lembrança da internação", lembra o médico.
Na pesquisa, Carvalho detectou vários problemas, a começar pelo barulho emitido pelas máquinas existentes na UTI. Pelas normas internacionais, numa Unidade de Cuidados Intensivos (nova terminologia usada por médicos para as UTIs), o índice de poluição sonora não deve passar 40 decibéis durante o dia e 30, à noite. O estudo revelou que a média produzida pelos aparelhos é o dobro do recomendado para o período noturno. "A Associação Brasileira de Normas Técnicas deveria fazer um trabalho efetivo de fiscalização desses instrumentos", defende o pesquisador. "Não há um controle rígido dos sons."
Entre os aparelhos avaliados na pesquisa, estavam incubadoras, bombas de infusão e aparelhos de ventilação pulmonar. "Muitas das máquinas apresentam alarmes que são acionados quando o paciente apresenta alguma reação anormal", explica o autor do estudo. Esses alarmes apresentam volume regulável. No entanto, geralmente, a equipe de profissionais de saúde mantém o som no nível alto. "Isso não é necessário", afirma Carvalho. "O sinal de alerta é bastante perceptível quando está no volume mínimo." Máquinas desreguladas também acabam muitas vezes emitindo um barulho exagerado. É o caso da incubadora, cujo motor produz um ruído contínuo. "Quando elas não estão ajustadas de forma adequada, esse som aumenta bastante."
Além das máquinas, Carvalho procurou verificar o barulho produzido pelos profissionais de saúde. Pela manhã, quando o movimento de médicos e enfermeiros é mais intenso, os ruídos chegam a 80 decibéis. "Pensei até que alguns dos profissionais tivessem problemas de audição, daí a fala num volume mais elevado", afirma o médico. No entanto, exames feitos nos profissionais mostraram que todos tinham audição perfeita.
A pesquisa fez com que várias providências fossem tomadas na Unidade de Cuidados Intensivos da Unifesp. Máquinas tiveram o alarme regulado para os volumes ideais. O pessoal foi orientado a falar mais baixo. "Outras medidas simples, como regular o som ambiente em apenas um local, ajudaram a diminuir os ruídos", afirmou Carvalho. Além disso, uma reforma da unidade para melhorar as condições acústicas, está a caminho. As crianças, no período da noite, começaram a receber sedativos para dormir com mais facilidade. "Precisamos respeitar mais os nossos pacientes", diz Carvalho.

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