Pesquisa constata presença de urânio em alimentos
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domingo, 27 de junho de 1999
Por Eugênio Melloni e Sônia Cristina Silva 
Brasília, 28 (AE) - Uma pesquisa conduzida pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) constatou a presença de urânio, em proporções consideradas nocivas, em vegetais e animais que servem de alimento para o homem. De acordo com o coordenador da pesquisa, professor João Arruda, os estudos deverão ser conduzidos, a partir de agora, com o objetivo de determinar a probabilidade de trasmissão, pela cadeia alimentar, dessa contaminação para o homem, verificar os órgãos que absorvem maior quantidade do mineral e avaliar o risco de a ingestão de produtos radioativos por meio de alimentos levar ao surgimento de câncer. "O urânio é cumulativo no organismo", explica Arruda. "Precisamos determinar em que ponto o câncer deixa de ser um risco estatístico para transformar-se numa certeza".
A razão da presença do urânio em vegetais e animais é a mesma: as rochas fosfáticas, que têm como subproduto indireto os fertilizantes e os suplementos minerais para alimentação de animais. "O Brasil diferencia-se de outros países ricos em urânio pela maior concentração desse mineral associado às rochas fosfáticas", explica Arruda. Beneficiadas, essas rochas transformam-se em fertilizantes e em ácido fosfórico, produto usado para diluir as rochas calcáreas, em um processo que resulta no fosfato bicálcico, produto utilizado como suplemento mineral principalmente para o frango e para o boi.
"Fizemos testes com 12 marcas de fosfato bicálcico e constatamos a presença de urânio em proporções entre 2 e 200 partes por milhão (ppm). O máximo recomendado para a ingestão crônica (alimentação diária) é 3 ppm por dia", explicou Arruda. Ele lembra que o fosfato bicálcico compõe 30% da dieta do gado bovino e 50% da alimentação do frango. Setenta por cento das marcas do produto são produzidas nas regiões mais ricas em urânio. Testes - Os pesquisadores do Instituto de Física já concluíram uma primeira bateria de testes. Em análises realizadas nos laboratórios do instituto, os pesquisadores já constataram, por exemplo, que a alface cultivada pelo sistema de hidroponia retêm 30% do urânio que absorve pela raiz. O exame em ratos de laboratório submetidos a uma alimentação rica em urânio comprovou um grande acúmulo do mineral nos rins, fígado, coração e ossos dos animais. "O que vamos testar agora é a eficiência da transmissão do urânio pela cadeia alimentar", disse Arruda.
Ele acrescentou que o urânio, além de ser cumulativo, é confundido pelo organismo humano e de animais com o cálcio. "Isso pode fazer com que ocorra uma grande concentração do urânio nos ossos", explica o professor. "Além disso, é levado pelo sangue para os órgãos vitais". O Instituto de Física iniciou, há duas semanas, a segunda etapa de testes, que será executada com o apoio da Universidade de Santo Amaro. Serão realizadas, nessa etapa, avaliações com cães da raça beagle, que
de acordo com Arruda, "têm mais 90% de suas respostas biológicas semelhantes às do homem". Depois disso, será utilizado um programa de computador para se apurar o risco de a presença do urânio nos órgãos provocar mutações nas células. Fiscalização - O escândalo da contaminação de frangos belgas estimulou o governo brasileiro a iniciar a construção de um sistema nacional de observação de substância tóxicas nos alimentos. Até agora movido a denúncias ou alertas, o Ministério da Saúde está fechando um contrato com o laboratório da Petrobrás, no Rio, para análise da presença da dioxina em produtos de origem animal. A prioridade será a fiscalização de alimentos destinados a crianças e mulheres em idade fértil.
O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVS) do ministério, Gonzalo Vecina, aposta em um convênio de curta duração com a estatal. O ministro da Saúde, José Serra, já recebeu a sugestão de montar um laboratório próprio, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), para servir de referência no controle dos alimentos. Lá seriam feitos testes para evitar o uso indevido de agrotóxicos, a contaminação por metais pesados, como mercúrio e chumbo e outros produtos químicos danosos à saúde do consumidor. Pelo sistema de observação, os alimentos seriam recolhidos para testes pelas vigilâncias estaduais. Mas o projeto de um laboratório referência no setor requer a aplicação de pelo menos R$ 1,5 milhão. Laboratório - A Petrobras, segundo o diretor-presidente da ANVS, é a única do Brasil com a tecnologia necessária para a realização de testes de dioxina, uma substância química que pode causar câncer. "Laboratórios como esse exigem alta sofisticação", disse Vecina. Inicialmente, o convênio entre o ministério e a estatal prevê a realização de 50 testes ao mês. O primeiro produto testado será o leite.
"Testando o produto, poderemos ter o perfil da qualidade da carne bovina e de todos os derivados de leite", explicou o gerente de Toxicologia da ANVS, Alfredo Benatto. A falta de controle no uso de substâncias já trouxe problemas ao Brasil, recorda o técnico, especialista na área de defensivos agrícolas. "Já houve devolução de mamão brasileiro pela Suécia", contou.


