Pesquisa condena ar de UTIs e centros cirúrgicos
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quinta-feira, 02 de dezembro de 1999
Por Gabriela Athias 
São Paulo, 02 (AE) - O ar de centros cirúrgicos e Unidades de Terapia Intensiva (UTI) de alguns hospitais de alta complexidade de São Paulo é tão infectado por bactérias que é como se os pacientes estivessem sendo operados no meio da rua. A única diferença é que nas vias públicas o ar é um pouco mais saudável. Essa é uma das conclusões da pesquisa-piloto feita pela sociedade científica Brasindoor com a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) em 14 casas de saúde públicas e privadas da capital.
O mais grave, diz o coordenador da pesquisa, Luiz Fernando Góes, é que essas bactérias são responsáveis por até 20% dos casos de infecção hospitalar. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que entre 4% e 16% dos pacientes internados são vítimas dessas infecções. No Brasil, o caso mais famoso é o do ex-presidente Tancredo Neves, que, operado de diverticulite, acabou morrendo de infecção generalizada.
Góes explica que a má qualidade do ar é consequência da manutenção precária dos aparelhos de ar-condicionado. Entre os 14 hospitais pesquisados, apenas 4 mantinham algum controle sobre esses equipamentos. Nos hospitais sem controle, os pesquisadores encontraram, em média, 262 Unidades Formadoras de Colônia (UFC) por metro cúbico de ar. Enquanto essas taxas, segundo a OMC, não devem ultrapassar 100 UFCs por metro cúbico.
Por incrível que pareça, o ar dos ambientes externos a esses hospitais (ruas) é menos infectado do que o dos centros cirúrgicos e UTIs: 214 UFCs por metro cúbico. "Se eu tivesse de ser operado, pediria para ficar internado em casa", resume Góes.
Fungo - O coordenador da pesquisa explica que a qualidade do ar nos hospitais é medida pela quantidade de bactérias e de fungos, responsáveis pelas infecções hospitalares mais graves. Nos hospitais que não controlam seus sistemas de ventilação, a taxa de fungos no ar ficou em 57,2 UFCs, quando a OMS recomenda tolerância de até 50 UFCs. No entanto, nas casas de saúde que controlam seus sistemas de ventilação, essa taxa é de apenas 8,9 UFCs.
Atualmente na maioria dos centros cirúrgicos, por exemplo, há um pequeno estoque. O problema é que esses medicamentos e equipamentos são guardados dentro das mesmas caixas de papelão em que foram transportados pela empresa de distribuição. "Caixas de papelão deveriam ser proibidas em centros cirúrgicos", diz Góes, ao explicar que elas acabam aumentando a quantidade de bactérias no ambiente. Outros itens que deveriam ser banidos desse ambiente são jornais e revistas. "Os médicos costumam ler jornal entre as cirurgias."
No Hospital Albert Einstein, onde a manutenção do ar é considerada padrão, o sistema de ar-condicionado passa por manutenção mensal. "Cuidamos até da casa de máquinas", diz o gerente de Manutenção, Antônio Carlos Cascão.
O resultado dessa pesquisa, que será apresentada no 2.º Simpósio Paulista de Qualidade do Ar, vai subsidiar a produção de uma espécie de manual de conduta para ser utilizado em áreas hospitalares. Essas regras serão sugeridas ao Ministério da Saúde, porque até hoje o Brasil não tem um padrão próprio para avaliar a qualidade do ar.
Além disso, a Faculdade de Saúde Pública da USP vai criar um curso de extensão que tem como objetivo capacitar os profissionais que trabalham em UTIs e centros cirúrgicos (médicos, enfermeiras, auxiliares de enfermagem e engenheiros de manutenção) a manter a pureza do ar. Ou pelo menos ensiná-los a não poluir ainda mais.


