Pesquisa com células-tronco é a sensação no mundo todo
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de março de 2002
Ruth Helena Bellinghini<br>Agência Estado 
É a pesquisa da moda, o assunto que põe de um lado o
ex-Super-homem Christopher Reeve e de outro o homem que engasga até com um pretzel, na expressão irônica que a geneticista brasileira Mayana Zatz usou esta semana para designar o presidente americano George W. Bush. Reeve, que ficou tetraplégico após um acidente, é um grande defensor das pesquisas com células-tronco embrionárias. Bush quer proibir as pesquisas que impliquem em destruição de embriões humanos.
A disputa no Primeiro Mundo é pelo futuro das pesquisas com as chamadas células-tronco embrionárias, aquelas capazes de dar origem aos 220 diferentes tecidos do organismo. Mas também por aqui as pesquisas com as células-tronco enfrentam problemas. Primeiro a lei brasileira, que considera o embrião intocável a partir da concepção - embora eles sejam manipulados e tenham até células extraídas para exame em clínicas de fertilização assistida - e obriga os pesquisadores a trabalhar apenas com células de adultos. Em segundo, uma espécie de confronto entre o público e o privado e que tem como pivô os cordões umbilicais.
Primeiro, descobriu-se que o sangue do cordão umbilical pode ser usado para repor a medula nos casos de leucemia, uma técnica usada desde 1988. Isso porque o sangue do cordão contém células CD34, capazes de dar origem a todas as células sanguíneas. Daí a proposta de montar bancos de cordões umbilicais, nos moldes dos bancos de sangue. O ideal é obter uma quantidade de sangue superior a 80 ml, suficiente para o transplante pegar numa pessoa de 50 quilos. As estimativas indicam que se estivessem disponíveis 12 mil cordões umbilicais, qualquer pessoa que precisasse de transplante encontraria um compatível.
Agora a idéia de que essas mesmas células-tronco possam no futuro dar origem a outros tecidos - para recuperar, por exemplo, fígado, coração, pâncreas - está atraindo casais não dispostos a doar o cordão de seus bebês, mas a pagar caro para estocar hoje as células-tronco de que o filho pode vir a precisar no futuro. O problema é que entre a grande esperança representada pelas células-tronco e sua transformação numa realidade terapêutica há uma enorme distância e muitos, muitos anos de pesquisa. E, enquanto isso, muita gente poderia se beneficiar com o uso do sangue desses mesmo cordões.
Por enquanto, a única utilidade concreta do sangue de cordão umbilical é o transplante de medula óssea e um banco de cordão, por exigência da lei que está sendo preparada, vai ter de ser ligado a um serviço de hemoterapia, a um centro de transplante e terá de seguir rigorosas normas de segurança, avisa o vice-presidente do BrasilCord, Luiz Fernando Bouzas, do Banco de Sangue e Cordão Umbilical e Placentário do Instituto Nacional do Câncer do Rio, que começa a funcionar para valer este mês. E foi justamente o critério segurança que adiou o início das operações do banco do Inca, que teve de readaptar suas instalações.
O objetivo do banco, público e gratuito, é recolher doações de cordões para serem usados em transplantes. Por enquanto toda essa história de guardar sangue de cordão por causa de células-tronco é puro comércio, ainda tem muita pesquisa pela frente, diz o especialista que estima em US$ 1 milhão o investimento necessário para montar um banco de 1.ª linha, que atenda a todas as exigências de segurança e qualidade.
Um banco de primeira linha funciona em São Paulo no Hospital Albert Einstein, particular, mas organizado de tal forma que num instante poderia funcionar como se fosse público, com sangue de cordão para transplante. Preservar um cordão seria interessante para famílias em que houve casos de leucemia, por exemplo, explica a hematologista Andreza Feitosa Ribeir. De acordo com ela, não é muito comum o sangue de cordão ser utilizado pela própria criança, mas é um irmão, primo ou outro parente que acaba precisando.
Daí a necessidade de ter padrões rigorosos de controle, com testes de histocompatibilidade, exames para detecção de aids, hepatites e outras doenças, controle de temperatura, contagem de células e por aí afora, afirma. O hospital toma o cuidado de guardar algumas amostras do sangue para a eventualidade de, amanhã ou depois, se descobrir um novo vírus, por exemplo, e precisar testar o material.
Quem se anima com a possibilidade de estocar sangue de cordão umbilical é a ginecologista Silvana Chedid, do Centro de Endoscopia Pélvica e Reprodução Humana do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo (Ceperh). Grávida pela primeira vez aos 37 anos, Silvana não só pretende congelar o cordão umbilical de seu filho Enzo como o dos filhos de suas pacientes. Vai cobrar US$ 400 de taxa de congelamento e mais uma semestralidade de US$ 200. Congelar embriões e sêmen é até mais complicado que congelar sangue de cordão, diz.


