Pesquisa atesta como é difícil a vida de um cadeirante
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sexta-feira, 27 de julho de 2018
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

Atividades corriqueiras que fazem parte do dia a dia de grande parte da população podem tornar-se um desafio para pessoas com problemas de mobilidade. Utilizar um banheiro público ou o transporte coletivo são algumas das dificuldades com as quais se deparam frequentemente as pessoas com deficiência e uma pesquisa internacional realizada pela agência britânica ComRes confirma o que elas, na prática, experimentam diariamente.
Os pesquisadores conversaram com 575 usuários de cadeiras de rodas em cinco países de três continentes: Brasil, Reino Unido, Estados Unidos, Índia e Japão. No Brasil, foram ouvidas 115 pessoas e 55% delas relataram dificuldades para encontrar banheiros acessíveis a pessoas com deficiência. Entre todos os ouvidos, o percentual foi de 43%, indicando que a inacessibilidade não se restringe aos países em desenvolvimento, embora o Brasil tenha tido o maior índice entre os cinco países participantes da pesquisa.
O estudo mostra também que, entre os cadeirantes brasileiros, 63% precisam de assistência para se locomover, 41% já tiveram de esperar vários ônibus ou trens até que chegasse um transporte com espaço para a cadeira de rodas e 23% foram impedidos de entrar no transporte público.
A advogada Lilian Almeida Fernandes ficou paraplégica em 2006 e, desde então, descobriu um mundo praticamente inacessível a pessoas com problema de mobilidade. "Eu não tenho acesso nenhum na cidade", reclama. "As nossas calçadas são muito quebradas e a maioria não tem rampa para que a gente consiga atravessar a rua. Nas que têm, o desnível entre a calçada e o asfalto é tão grande que não consigo manobrar a cadeira de rodas. Dependo da ajuda de alguém. Não consigo ter essa independência."
Utilizar um banheiro público, uma das maiores dificuldades apontadas pelas pessoas ouvidas pela pesquisa, também é um inconveniente para Fernandes. "Mesmo com a obrigatoriedade de que quando for feita a reforma sejam instalados itens que garantam a acessibilidade, isso não acontece e, quando acontece, as reformas são feitas pela metade. Não tem barra de segurança, os banheiros são pequenos e a cadeira não entra. Me parece que não há fiscalização depois que as obras são feitas."
SOLIDARIEDADE
Fernandes elogia o espírito solidário das pessoas que compreendem as dificuldades de mobilidade enfrentadas por ela e se prontificam a ajudar, mas ressalta que o ideal seria que os proprietários de estabelecimentos comerciais garantissem a independência dos cadeirantes. "A gente tem que ter cidadania plena. Mas as leis não são cumpridas e não há fiscalização. Me sinto uma cidadã de segunda categoria. Depois do acidente, fui obrigada a diminuir o ritmo da minha vida social. Minha vida só não mudou radicalmente pelos amigos e pela família, que fazem de tudo para que eu me sinta bem e tentam driblar os obstáculos junto comigo."
"As dificuldades enfrentadas por uma pessoa com deficiência vão desde lugares que não têm rampa de acesso, por exemplo, até a utilização de banheiro público. Em Londrina, você dificilmente encontra um banheiro público adaptado", reforça a vice-presidente da Afel (Associação Famílias Especiais de Londrina), Michelle Berbert Santos. "A adequação dos espaços de acordo com a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) é bem precária no Brasil."
E quando há banheiros adaptados para pessoas com deficiência, há outra dificuldade de acessibilidade. "Dias atrás eu e minha filha fomos a um supermercado com banheiro adaptado, mas ele não fica aberto. Tem que ir até o serviço de atendimento ao cliente e pedir a chave. Mas também isso vai muito da cultura brasileira de querer usar o que não é dele porque o banheiro adaptado é maior, não tem fila. É falta de consciência e de empatia", avalia Santos.
Santos é mãe de Valentina, cinco anos, que tem paralisia cerebral causada pela falta de oxigenação na hora do parto. Enquanto a menina ainda é pequena, a mãe consegue se ajustar e driblar os obstáculos, mas ela sabe que as dificuldades vão aumentando com o passar dos anos e luta para garantir a aplicação das leis para que as pessoas com deficiência possam ter acesso a todos os espaços, sem encontrar obstáculos pelo caminho. "No Brasil, tudo é muito lento, tudo demora muito para acontecer, mas de pouco em pouco, estamos conseguindo."
PROJETO
Por meio do Projeto Fiscalizadores do Bem, implantado pela Afel com apoio da CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização), uma das conquistas da entidade foi a ampliação do número de vagas de estacionamento exclusivas para pessoas com deficiência, que no município não atinge a cota de 2% prevista em lei. De 46 pontos elencados pela associação, 18 foram implantados. "É um trabalho de formiguinha por meio do qual procuramos dar voz a quem não tem representatividade", diz Santos.
O estudo foi realizado pela ComRes uma das agências do Conselho Britânico de Pesquisas - para a Toyota Mobility Foundation. Para responder à pesquisa, foram selecionadas pessoas em cadeiras de rodas no momento da entrevista ou que tivessem usado o equipamento por um período de seis meses nos últimos cinco anos. A base para a estimativa de respondentes foi a taxa de incidência disponibilizada pela OMS (Organização Mundial da Saúde).
A pesquisa foi encomendada como parte do Desafio Mobilidade Ilimitada, que irá investir US$ 4 milhões em soluções que melhorem a qualidade de vida dos cadeirantes. A ação é uma iniciativa da Toyota Mobility Foundation e do Challenge Prize Centre da Nesta.


