Pesquisa aponta riscos do trabalho urbano à saúde dos menores
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domingo, 04 de agosto de 2002
Evanildo Da Silveira<br> Agência Estado 
São Paulo Sempre que o assunto é trabalho infantil ou adolescente, o que vem à cabeça de muitas pessoas é a imagem de crianças quebrando pedra, fazendo carvão ou cortando cana. Ninguém lembra dos office-boys, dos cobradores de vans ou dos empacotadores em supermercados, que além de trabalhar também estudam. O trabalho desses menores urbanos passa despercebido ou, o que é pior, é visto como leve e até benéfico para eles. Uma pesquisadora da USP acaba de demonstrar que isso não é verdade. A dupla atividade é penosa e prejudicial à formação intelectual e social desses jovens.
Para conhecer de perto a vida e o trabalho de adolescentes do ensino médio, a bióloga Frida Marina Fischer, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, junto com uma equipe multidiciplinar, estudou 354 alunos, de 14 a 18 anos, de um colégio estadual da cidade de São Paulo. ''A idéia foi avaliar as condições de trabalho dos estudantes'', explica. ''Queríamos saber onde, quando e o que fazem e o que pensam sobre seu trabalho. Estudamos os riscos presentes e os possíveis prejuízos à saúde e ao desenvolvimento educacional associados ao ofício.''
Esse estudo pode ser considerado uma continuação do trabalho que Frida vem realizando com crianças e adolescentes do interior há 15 anos. ''Achamos que o problema na capital também é sério'', diz. ''Não é de gente quebrando pedra ou fazendo tijolo, mas de quem trabalha em escritório, banco, bar, supermercado, telemarketing, lojas ou como cobrador de van, office boy e empregada doméstica. É um trabalho urbano, mas nem por isso melhor e menos prejudicial.''
Segundo a pesquisadora, essas atividades tem características diferentes das rurais. O número de acidentes de trabalho, por exemplo, é menor na cidade. ''Mas, em contrapartida, aqui na capital, na escola que estudamos, os alunos relatam condições de insalubridade, de desconforto por ter de trabalhar em pé, com posturas inadequadas e cansativas'', conta Frida. ''São fatores de risco para os jovens que podem levá-los a sentir dores no corpo, acarretar lesões músculo-esqueléticas que incapacitam temporária ou definitivamente para a vida ativa de trabalho.''
Os números resultantes da pesquisa não deixam dúvidas disso. Dos 354 alunos pesquisados, 52% trabalham e outros 24% estão desempregados, portanto já trabalharam. ''Dos empregados, 62% sentem dores no corpo por causa do trabalho'', revela Frida. ''Nosso estudo mostra ainda que aqueles que estão submetidos a maiores exigências psicológicas no trabalho têm três vezes mais chances de sentirem dores no corpo do que os que não sofrem esse tipo de pressão.''
O ciclo vigília-sono, aliás, foi um dos aspectos avaliados pela pesquisa. ''Queríamos ver o quanto e como dorme o trabalhador adolescente e se há algum prejuízo em suas atividades sociais e estudantis'', explica a bióloga Liliane Reis Teixeira, integrante da equipe pesquisadora. ''O jovem, por estar em fase de desenvolvimento, tem uma necessidade biológica de dormir mais do que o adulto. Ele precisa dormir umas 9 ou 10 horas por dia.''
Os que foram pesquisados, no entanto, não dormem mais do que 7 horas a 7 horas e meia. ''A consequência imediata é uma sonolência acentuada durante o dia, podendo gerar desde desatenção até acidente de trabalho'', alerta Liliane.
É por esses resultados que Frida é contra o trabalho de adolescente. ''Infelizmente existe um segmento da sociedade que é a favor do trabalho do adolescente, que acha que isso vai evitar que muitos se transformem em bandidos'', diz. ''Mas eu não penso assim. O trabalho do adolescente, a meu ver, só tem sentido, se trouxer para ele ganhos intelectuais, de forma que possa, sem prejuízo de sua vida escolar e de sua socialização e de sua saúde, ganhar algo. Se não, para quê?''


