Pesquisa aponta renda baixa e êxodo de jovens no meio rural
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quinta-feira, 11 de março de 1999
Por Mariângela Herédia 
Brasília, 12 (AE) - Pesquisa inédita encomendada pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) revela um quadro dramático dos produtores rurais brasileiros. A renda é baixa - quase um quarto deles ganha até três salários mínimos por mês. A idade é alta - apenas 5,8% têm até 35 anos - e os filhos não trabalham mais nas fazendas, já que 70,2% migraram para a cidade.
Os dados do censo feito em 400 mil propriedades rurais ainda são preliminares, mas demonstram que é quase impossível deter a transferência do campo para a cidade, na avaliação do presidente da CNA, Antônio Ernesto de Salvo. Ele acredita que o governo deveria tomar medidas para aumentar a rentabilidade no campo e, em consequência, desacelerar o êxodo rural.
O problema, ressalta, é que a relação entre a população rural e urbana no Brasil ainda é alta, em comparação com outros países. Nos Estados Unidos, apenas 2% da população vivem no campo, subsidiada pelos 98% que moram na cidade. Na Europa, 7% dos habitantes permanecem no campo e no Brasil, 23% da população continuam vivendo na área rural. "Os 77% dos brasileiros que vivem na cidade não têm como subsidiar os que estão no campo", avalia.
O ministro da Agricultura, Francisco Turra, disse que até o final do mês deverá anunciar medidas para incentivar o emprego rural, chamado Volta ao Campo. Segundo ele, o presidente Fernando Henrique Cardoso aprovou a idéia e agora o Ministério trabalha na elaboração do programa.
O Programa Volta ao Campo deverá ser idealizado a partir de experiências que estão dando certo no País. Uma delas, desenvolvida pela Faculdade de Agronomia de Espírito Santo do Pinhal (SP), prevê assistência técnica integral e permanente aos pequenos produtores rurais, com área igual ou inferior a 100 hectares. De acordo com os responsáveis pelo programa, 82% dos pequenos produtores de São Paulo nunca tiveram, ao longo de sua vida como agricultores, qualquer tipo de assistência técnica.
Entre as dificuldades decorrentes dessa falta de assistência técnica citam o uso de tecnologias e sistemas de produção ineficientes como o emprego intensivo de fertilizantes químicos sem necessidade, a falta de análise do solo para identificação de suas aptidões e carências para abrigar diferentes culturas e contaminação de rebanhos por diferentes tipos de doenças.
Como têm forte resistência a mudanças em seu negócio, principalmente porque não dispõem de qualquer tipo de orientação
os pequenos agricultores vivem num verdadeiro círculo vicioso: não produzem mais e melhor por falta de orientação técnica; não vendem mais porque não produzem mais e melhor e não aumentam sua renda porque vendem pouco.
"Assim o círculo vicioso se fecha porque, não tendo renda adicional, não têm estímulo para produzir mais e melhor, o que os impossibilita de melhorarem seu padrão de vida", destaca documento do Sistema Volta ao Campo paulista, entregue ao ministro Turra.
Melhoria - Nos cinco anos de funcionamento do sistema em municípios de São Paulo, houve geração de 1,2 emprego por propriedade atendida, aumento da produtividade em 20% e da produção em 50%, melhoria das condições ambientais das pequenas propriedades, diversificação de culturas, criação de agroindústrias, aumento da arrecadação tributária dos municípios e Estados e melhoria na qualidade dos produtos, que assim, alcançam preços maiores no mercado e geram mais renda aos produtores.
Os custos por agricultor são da ordem de R$ 850,00 por ano ou R$ 70,83 por mês, e o Ministério da Agricultura avalia a possibilidade de utilização de financiamentos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para o Volta ao Campo.
A idéia é estender o sistema Volta ao Campo ao restante do Brasil, utilizando outras parcerias como o Projeto Lumiar, que dá assistência técnica aos assentamentos de reforma agrária e o Comunidade Solidária.


