O dossiê “A morte veste farda”, divulgado nesta terça-feira pela IDMJR (Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial), do Rio de Janeiro, emoldura um retrato da política de segurança pública em cinco estados brasileiros, entre eles o Paraná. O documento aponta para uma tendência de priorização do policiamento ostensivo e do enfrentamento armado, em detrimento de investimentos em investigação, perícia e elucidação de crimes. Para a entidade, o foco no enfrentamento se reflete diretamente em baixos índices de resolução de homicídios e na manutenção de ciclos de violência.

Procurada, a Sesp (Secretaria Estadual de Segurança Pública) nega que priorize o policiamento ostensivo na elaboração de suas políticas e elenca dados estatísticos que apontam para a redução de crimes e aumento na solução e prevenção de delitos (leia abaixo).

O relatório “A Morte Veste Farda” pretende alimentar o debate público sobre segurança no Brasil, compilando dados orçamentários e legislativos que, segundo a entidade, ajudam a compreender as prioridades dos governos estaduais e os impactos dessas escolhas na vida da população. No Paraná, o levantamento foi feito em parceria com a Rede Nenhuma Vida a Menos, movimento político e social de combate à violência policial, racismo estrutural e mortes violentas entre a população negra e periférica.

O estudo revela que o orçamento paranaense destinado à segurança pública em 2026 soma cerca de R$ 7 bilhões. Desse total, aproximadamente R$ 4,8 bilhões — o equivalente a 56% — são direcionados ao policiamento. A maior fatia fica com a Polícia Militar, com R$ 2,5 bilhões. Em seguida aparecem a Polícia Penal, com previsão de R$ 1,2 bilhão, e a Polícia Civil, responsável pelas investigações, com cerca de R$ 900 milhões. Já a Polícia Científica, dedicada à produção de provas periciais, conta com R$ 33 milhões, o que corresponde a 0,47% dos investimentos em segurança pública.

Para a IDMJR, a distribuição dos recursos evidencia uma escolha política. “O orçamento, basicamente, é para fazer uma polícia baseada no enfrentamento”, afirma o diretor-executivo da entidade, Fransergio Goulart. Segundo ele, o padrão observado no Paraná se repete em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Santa Catarina, que também foram analisados.

Na opinião de Goulart, o levantamento indica uma política de segurança pública centrada no confronto, e não na prevenção ou na inteligência, comprometendo a capacidade do Estado de investigar crimes. “A elucidação de casos é muito baixa, não chega a 5% nos casos de homicídios praticados por intervenção policial”, afirma.

O diagnóstico do dossiê também chama atenção para o crescimento da influência de agentes de segurança pública nas assembleias legislativas, o que, segundo a IDMJR, contribui para o aumento de propostas voltadas ao endurecimento penal e à ampliação de recursos para as forças policiais. “A gente vê um aumento de propostas legislativas e do orçamento com as polícias. E não estamos falando de aumento salarial, mas de investimento em uma lógica de enfrentamento”, explica.

Política prisional

Outro ponto abordado pelo dossiê é a política prisional. O orçamento paranaense destina cerca de R$ 1,9 bilhão ao sistema prisional e à socioeducação, sendo R$ 33 milhões voltados à ressocialização de pessoas privadas de liberdade, de acordo com Goulart. Para ele, a baixa destinação de recursos para ressocialização reforça uma lógica de encarceramento em massa.

Para a IDMJR, os dados indicam que a política de segurança pública adotada pelos Estados analisados está mais alinhada a uma lógica de controle social e repressão do que à redução efetiva da criminalidade. “Parece que a gente não quer enfrentar a solução do problema, mas continuar com ele”, afirma Goulart.

Ele defende que a reversão desse cenário passa pela reorientação dos investimentos públicos, com maior foco em políticas sociais e estruturais, como educação, saúde e redução das desigualdades. “Talvez, assim, a gente consiga construir uma política de segurança pública que mate menos e resolva mais”, sugere.

ESTATÍSTICAS POSITIVAS

Por meio de nota, a Sesp refutou a sugestão de que o Paraná adote uma política de segurança pública baseada no policiamento ostensivo e afirmou que a atual gestão “reestruturou o sistema com integração entre presença policial, inteligência, investigação, perícia e ressocialização”.

De acordo com a pasta, ao comparar os anos de 2025 e 2018, os homicídios dolosos (com intenção de matar) caíram de 1.955 para 1.183, uma redução de 39%. Os roubos também recuaram de 60.092 para 14.792 no período, uma redução de 75%.

A nota também ressalta a retirada de 12 mil presos da custódia da Polícia Civil desde 2019, “devolvendo a PCPR à sua função de investigar”. Ainda relata o aumento das operações de repressão qualificada, que saltaram de 94 em 2018 para 795 em 2025, um crescimento de 745%. A manifestação oficial também indica que a elucidação de homicídios saltou de 12% em 2018 - “a pior taxa do Brasil”, frisa – para 97% de solução desses crimes em 2024.

O governo estadual também defende que fortaleceu a perícia oficial e a ressocialização, com ampliação de 402 servidores em 2019 para 884 profissionais em janeiro de 2026 e crescimento de de laudos emitidos de 87.794 em 2018 para 132.957 em 2025.

Já a Polícia Penal mantém cerca de 35% da população carcerária em atividades laborais, o equivalente a 15.444 pessoas privadas de liberdade. “Isso mostra que o modelo adotado no Paraná não se resume à repressão: combina redução da criminalidade, fortalecimento da investigação, expansão da prova técnica e reintegração social”, argumenta.

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