Brasília, 30 (AE) - O governo divulgou uma pesquisa segundo a qual 71% dos brasileiros aprovam o novo modelo descentralizado da reforma agrária. De acordo com o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Nelson Borges, o apoio popular deverá aumentar quando o governo "deslanchar" novos assentamentos, que ainda estão "represados", por falta de definição das novas linhas de crédito.
Um dos coordenadores nacionais do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Gilberto Portes, contestou o resultado da pesquisa. Disse que as respostas foram induzidas, uma vez que as perguntas sugeriam que o governo dá terra às famílias.
A pesquisa telefônica foi feita pela empresa Marketing, Estratégia e Comunicação Institucional (MCU), a pedido do Ministério de Política Fundiária e do Incra. Foram ouvidas mil pessoas, em cem municípios, em 25 de março. A intenção do governo foi medir a aceitação da nova política de descentralização da reforma agrária, que será feita em parceria com os Estados. Segundo a pesquisa, 71% dos entrevistados acham a nova reforma agrária "um modelo melhor que o anterior".
A MCI perguntou literalmente pelo telefone: "Em vez de dar terra, o governo agora facilitará a compra das terras pelo trabalhador sem-terra, dando a ele mais direitos e mais assistência técnica, mas também mais responsabilidade." Pelas respostas registradas, 89% aprovaram, 7% desaprovaram e 4% não souberam ou não responderam.
"Mas o governo federal nunca deu terra a ninguém", contestou Portes, do MST. O presidente do Incra, Nelson Borges, também reconheceu que o governo realmente não "dá" terra a ninguém e a pergunta na pesquisa foi "mal-formulada". O que ocorre hoje, segundo Borges, é que muitos assentados não conseguem pagar pelas glebas que recebem, apesar das cobranças.
Portes também criticou o fato de a pesquisa ter sido feita entre a classe média. Apenas 24% dos entrevistados que responderam à pesquisa ganham até dois salários mínimos e 60% moram nas Regiões Sudeste e Sul. Para o coordenador, pesquisas sobre reforma agrária não deveriam ser feitas apenas entre os que possuem telefones e moram em cidades de regiões mais ricas. "O governo deve pesquisar sobre reforma agrária lá no sertão, onde as pessoas estão morrendo de fome." Portes ainda classificou a pesquisa como incompleta por não abordar a principal transformação, que é a descentralização, a partir de convênios com os Estados. "Deveriam ter perguntado se o cidadão concorda que o governo federal abra mão de sua responsabilidade pela desapropriação de latifúndios", disse.
De fato, embora o objetivo da pesquisa fosse avaliar a opinião das pessoas sobre o modelo descentralizado de reforma, com maior participação dos Estados, a MCI não incluiu na pesquisa nenhuma direta pergunta sobre o assunto. Entre os entrevistados, poucos (26%) "ouviram falar" do novo modelo. A maioria (64%) admitiu que recentemente não havia visto nenhum informativo sobre a questão da reforma agrária.
Apesar da polêmica, o Incra considerou positivo o resultado da pesquisa telefônica. Afinal, trata-se do primeiro referencial disponível sobre a nova política.
Borges disse que a aprovação pública poderá ser maior no futuro, lembrando que a reforma agrária, neste ano, ficou "represada" pela falta de definições sobre as novas condições de crédito. O número de famílias assentadas neste ano caiu 86% em relação ao mesmo período de 1998, por falta de definição da nova política de reforma agrária.
O Ministério de Política Fundiária sugeriu à área econômica a criação de sete faixas de juros para os novos financiamentos dentro da linha de crédito que vai unificar os Programas Especial de Crédito da Reforma Agrária (Procera) e Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf). Quanto mais emancipado o agricultor, maiores serão as taxas de juros.

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