Pesquisa aponta diferenças entre jovens infratores e seus irmãos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de abril de 1999
Por Gilse Guedes 
Rio, 29 (AE) - O universo de jovens infratores e de seus irmãos que nunca praticaram crimes revela fatores determinantes para a deliquência, como os traços da personalidade e o relacionamento familiar, segundo um estudo do Centro Latino-Americano de Estudo da Violência e Saúde (Claves) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
A pesquisa, que foi financiada pelo Ministério da Justiça e pela Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), recebeu o prêmio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Ela vai ser um instrumento para o trabalho de agentes federais e estaduais no combate à violência.
Depois de fazer 91 entrevistas com jovens, entre os quais 60 infratores e 31 irmãos não-infratores, a coordenadora do estudo, a pesquisadora Simone Gonçalves de Assis passou a estabelecer uma radiografia desse universo. "Queria saber por que alguns optam por uma vida infracional e outros, seus irmãos, têm condições de resistir", declarou Simone.
Segundo ela, esse paralelo foi importante para detectar que o jovem, que vive num meio violento, seja numa favela ou num bairro de classe média, pode ter elementos para evitar o crime.
Ao longo da análise, que vai fazer parte de um livro a ser publicado em maio pela Fiocruz, Simone revela que o modelo familiar de cada um dos envolvidos no trabalho é um dos fatores determinante para a deliquência. "Um menino infrator considera a violência na família algo natural e a incorpora para sua vida."
"Enquanto, o irmão não-infrator luta contra àquela situação e tenta buscar uma referência positiva para sua vida, que pode ser um professor, um amigo, um parente ou mesmo um agente de educação e de saúde". afirma.
Os grupos de amizades do jovem que cometeu crimes e de seu irmão são também "radicalmente distintos", segundo Simone. "Os meninos infratores têm uma opção de amizade ligada ao crime
ao consumo de drogas, enquanto seus irmãos não-infratores recusam-se a ter uma aproximação com esse ambiente."
Conforme Simone, o nível de escolaridade ainda cumpre um papel importante na definição individual do dia-a-dia dessas crianças e jovens. "O não-infrator tem um maior nível de escolaridade e tem mais condições de lutar para não assumir uma postura de vida como a de seu irmão."
As opções de lazer e os aspectos psicológicos revelam ainda as diferenças entre os dois focos da publicação. "O menino infrator privilegia o baile funk, não só para se alegrar, mas também para participar de atos violentos. Já o irmão não-infrator prefere pagode e tenta evitar o baile funk, justamente pela violência."
Segundo ela, quanto ao lado psicológico, aquele que cometeu crimes tem uma postura mais agressiva no dia-a-dia. O limite entre aquele menino infrator e seu irmão é muito tênue. "Daí a necessidade de interferência do Estado, com seus agentes de educação e de saúde".
"O jovem que cometeu um crime, por essa razão, não pode ser condiderado um caso perdido e deve ter ajuda do Estado", defende.


