Peso nas contas públicas faz FHC evitar discussão sobre mínimo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de fevereiro de 1999
Por Isabel Braga e Ribamar Oliveira 
Brasília, 09 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso não quis falar hoje, durante entrevista após a inauguração do gasoduto Bolívia-Brasil, sobre o novo valor do salário mínimo que será fixado em maio pelo governo. "Que dia é hoje?", perguntou Fernando Henrique quando foi questionado sobre o porcentual de reajuste que o mínimo terá. "Vamos esperar um pouquinho", acrescentou.
A cautela do presidente ao tratar do assunto pode refletir uma preocupação que existe na área técnica do governo sobre a repercussão negativa que um aumento do salário mínimo este ano teria no déficit público, por causa de seu impacto nas contas da Previdência Social, das prefeituras e dos governos estaduais.
O ministro do Trabalho e do Emprego, Francisco Dornelles
foi igualmente reticente ao falar sobre o reajuste do mínimo. Mas deu algumas indicações de que o governo poderá tratar o assunto mais do ponto de vista técnico do que político, mesmo com todo o desgaste que isso possa resultar. "Modificações no salário mínimo podem aumentar o déficit público, pressionar a inflação e tirar a estabilidade da moeda", disse Dornelles.
Por causa das repercussões sobre as contas da Previdência, dos Estados e dos municípios, o ministro acha que esse assunto precisa ser tratado com cuidado. "Qualquer proposta que mude o valor nominal do salário mínimo e que tenha como consequência, no futuro, a perda do poder de compra do trabalhador é simplesmente demagógica e não encontra sustentação lógica", afirmou.
O importante para o governo, no entendimento do ministro
é levar em conta o salário real do trabalhador, o seu poder de compra, e não o valor nominal do salário mínimo. Dornelles argumentou que o salário mínimo hoje é quase "um gráfico" em boa parte do País. "Nas regiões mais desenvolvidas, o salário mínimo não representa o salário efetivamente recebido pelos trabalhadores", afirmou.
O mínimo teria importância, de acordo com o ministro, nas regiões mais pobres e no interior do Brasil. Para Dornelles, a preocupação do governo é com o aumento do poder de compra do trabalhador. "Para isso, o melhor caminho é preservar a estabilidade da moeda".
Na área técnica do governo, há quem defenda a tese de que o governo não deve conceder, este ano, reajuste para o mínimo. Os defensores dessa proposta argumentam que o desgaste político do presidente Fernando Henrique Cardoso seria compensado pelo rápido controle da inflação, que resultará da desvalorização do real, e pela retomada do crescimento econômico.


