Frutas plantadas nas ruas atraem a comunidade, mas os técnicos em meio ambiente alertam para os riscos da queda de galhos mais moles ou os frutos caídos tornarem as vias escorregadias para pedestres
Frutas plantadas nas ruas atraem a comunidade, mas os técnicos em meio ambiente alertam para os riscos da queda de galhos mais moles ou os frutos caídos tornarem as vias escorregadias para pedestres | Foto: Fotos: Gustavo Carneiro



Caminhar e encontrar a poucos passos de casa uma mangueira carregada e uma amoreira esperando a época dos frutos. Em Londrina, essa é uma realidade graças ao apoio da comunidade. Observando bem, é possível encontrar frutas de vários tipos em locais públicos, transformando a cidade em um sacolão a céu aberto.

Entre os prédios da Gleba Palhano (zona sul), uma goiabeira resiste à poeira e à pressa dos londrinenses que passam pela avenida Madre Leônia Milito. É lá também que há uma pequena bananeira crescendo no canteiro. Ainda na zona sul, um grupo de ameixeiras formam caminhos de sombra na rua Adhemar Pereira de Barros, local onde as caminhadas se tornam mais saborosas. As vias principais guardam os mais variados sucos, mas é entre os bairros que a colheita se revela.

Plantadas em espaços públicos como vales, à beira dos lagos ou praças, as arvores frutíferas oferecem menos riscos para quem transita perto delas
Plantadas em espaços públicos como vales, à beira dos lagos ou praças, as arvores frutíferas oferecem menos riscos para quem transita perto delas



"As pessoas às vezes estão indo para o trabalho e param aqui para pegar uma amora", conta Adriano Meira Garcia, 23, que mora há 6 meses em frente a uma amoreira, no Jardim Presidente (zona oeste). O estudante acredita ser um privilégio poder pegar a fruta no pé, mas lamenta que nem todos valorizam. "É comida de graça. As pessoas não dão valor, têm medo, preferem as que estão na embalagem do mercado. É um pouco de ignorância", critica. No mesmo bairro, é possível encontrar cerejas e mangas disputando, cada uma a sua época, o interesse dos transeuntes.

Uma amoreira mais valorizada se destaca em frente à oficina de José Cruz Lima, 73, no Jardim Bandeirantes (zona oeste). "Uma mulher de Presidente Prudente (interior de São Paulo), parou o carro, pegou as frutas e tirou foto, porque as crianças dela não conheciam o pé", recorda. A educação ambiental veio naturalmente pelo plantio feito por Lima, na calçada de uma rua movimentada. "Aqui todo mundo gosta, principalmente as crianças. Faz uma sombra boa e dá frutas duas vezes ao ano", conta.

Nelson Tokoshima, morador da zona leste: "A gente aproveita as frutas de várias formas, é um espaço comunitário"
Nelson Tokoshima, morador da zona leste: "A gente aproveita as frutas de várias formas, é um espaço comunitário"



Engana-se quem pensa que apenas frutas comuns a nossa flora insistem em nascer. Do outro lado da cidade, na avenida Robert Koch (zona leste), é possível conhecer o cajá-manga, fruta típica no nordeste resistente ao clima do sul brasileiro. "Eu tinha a muda e plantei. Todo mundo pega, eu não acho ruim, só quando tiram antes de amadurecer", conta Nelson Tokoshima, 72. Quem passar pelo local, pode aproveitar as épocas de ingá, jaca e ameixa que acompanham a fruta-do-conde, uma das mais desejadas.

Além do gosto, a vizinhança pode se beneficiar da paisagem e dos pássaros. "A árvore de jaca é bonita, não é? Eu fico a tarde olhando para ela. A gente aproveita de várias formas. É um espaço comunitário", orgulha-se Tokoshima. As plantas tornaram o local mais humanizado, com o compartilhamento da sombra, frescor e pomar. Embora o tamanho das jacas assuste, sentar embaixo da copa da árvore não é problema, uma cadeira velha posicionada denuncia o descanso alheio. O aposentado afirma que nunca houve acidente com a queda das frutas.

Adriano Meira Garcia mostra uma amoreira na zona oeste: "As pessoas não dão valor,preferem as que estão na embalagem do mercado"
Adriano Meira Garcia mostra uma amoreira na zona oeste: "As pessoas não dão valor,preferem as que estão na embalagem do mercado"



Pensando nos riscos, Nair de Lima, 59, agradece que o abacateiro que tanto gosta esteja em um campo maior do conjunto Aquiles Stenghel (zona norte). A dona de casa tem boas lembranças, já que a árvore está lá há aproximadamente 20 anos, quando seu pai teve a iniciativa de cultivar. "As pessoas aqui valorizam, todo mundo cuida. Acho bom quando é em praça, mas nas avenidas tem o perigo de cair nas pessoas", opina. No mesmo local, outra espécie de abacate, a mangueira plantada pelo vizinho e um pé de goiaba, que cresce abandonado na sarjeta para mostrar de que é possível florescer ainda que nas piores condições.

No mesmo bairro, José Alves de Oliveira, 76, orgulha-se de que a vizinhança ajuda a cuidar dos pés de manga, colorau, romã, abacate e jaca no canteiro. "Ninguém liga que outra pessoa passe e pegue, o que não serve para mim, serve para o outro", ensina. O aposentado acredita que o espaço auxilia até os mais necessitados. "Se passa uma pessoa com fome, essas frutas servem para ele", defende.

Além dos bairros, as árvores frutíferas ilustram espaços importantes da cidade. Lago Igapó, Bosque Central, espaço da Prefeitura e outros locais públicos resguardam uma parte do pomar. Da banana e manga ao jamelão e gabiroba. Educação ambiental e social. As árvores frutíferas ensinam de forma natural a compartilhar e a zelar. Na calçada, praças ou fundos de vale, aprende-se que o cuidado em conjunto pode fazer com que todos colham bons frutos.

Confira mapa das frutas citadas na matéria:

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