Perueiros enfrentam Guarda Civil e incendeiam ônibus durante protesto em SP; cobrador foi baleado
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terça-feira, 05 de outubro de 1999
Por Gláucia Leal 
São Paulo, 06 (AE) - Perueiros e guardas-civis metropolitanos enfrentaram-se hoje durante todo o dia nas proximidades da Administração Regional da Capela do Socorro, na zona sul de São Paulo. Foram pelo menos seis conflitos. A confusão começou por volta das 9 horas, quando duas peruas irregulares foram apreendidas durante blitz de rotina realizada pela São Paulo Transporte (SPTrans) com apoio da Guarda Civil Metropolitana (GCM).
Os perueiros protestavam em frente da regional pedindo a liberação dos veículos, quando houve um tumulto e o cobrador de perua Agnaldo Neres, de 20 anos, há três meses na profissão, foi baleado. O tiro atravessou o maxilar e se alojou no ombro. Durante o dia mais de dez pessoas tiveram ferimentos de menor gravidade. Pouco antes das 17 horas, o conflito estendeu-se por aproximadamente 20 minutos pelas ruas próximas à regional. Mais de 300 perueiros e cobradores atiravam pedras, tijolos, pedaços de madeira e rojões.
Os guardas, alguns deles com cães, cassetetes e escudos, ora avançavam, ora recuavam, enquanto os manifestantes se espalhavam pela área. Nos momentos de desespero, quando vários rojões explodiam ao mesmo tempo, atirados contra eles, os guardas também atiravam as pedras de volta. Só depois que os ânimos já se tinham acalmado um pouco, a Tropa de Choque da Polícia Militar chegou ao local, com cerca de 50 homens. A tropa
porém, não chegou a agir. Reunião - Ao meio-dia, enquanto ocorria uma reunião entre representantes dos perueiros, da GCM e da PM, na regional, os manifestantes que se concentravam no Largo Rio Bonito, na Avenida Teotônio Vilela, ameaçaram atacar guardas que passaram pelo local. Nesse momento havia 500 manifestantes na praça. Às 15h30, os manifestantes deixaram o largo e foram para a frente da regional. Chegaram gritando e ameaçando invadir o prédio, exigindo a liberação das duas peruas apreendidas. O motorista do carro de som avançou contra os guardas e nova confusão teve início. Um guarda foi ferido com uma pedrada e socorrido, inconsciente. Menos de uma hora depois, novo tumulto começou. Apreensão - Segundo o inspetor-chefe de Agrupamento da GCM, Carlos Eduardo Vieira Padilha, a apreensão fazia parte de uma operação de rotina. Ele não admitiu que o tiro que feriu Neres tenha partido da arma de um de seus homens. "Vamos apurar as responsabilidades e, se for o caso, abrir inquérito policial e administrativo", afirmou. Ressaltou que os disparos podem ter partido de ambas as partes envolvidas no conflito. O perueiro Gecivaldo Palmeira Damasceno, que trabalha com Neres, afirmou ter visto quando um policial baixo e de óculos atirou em seu amigo. "Posso reconhecer esse homem". Fogo - Por volta das 19 horas a confusão ainda era grande na Avenida Teotônio Vilela. Cerca de 200 manifestantes fecharam o trânsito, aproveitando o horário de maior movimento. Após a intervenção da tropa de choque, eles deixaram o local. No começo da noite os manifestantes depredaram dois ônibus na Rua Belmira Marin e colocaram fogo neles. As labaredas atingiram a rede elétrica, houve curto-circuito e a rua ficou sem iluminação. Outros 20 veículos tiveram os vidros quebrados no terminal do Grajaú.
Na opinião do coronel Domingos Libonati, comandante da área, não houve demora na atuação do choque durante os conflitos. "A polícia age de acordo com as necessidades, esperamos que as negociações estivessem esgotadas". No 101.ºDP, no Jardim das Imbuias, o dia foi "infernal", segundo definição do delegado Glauco Pescarollo de Oliveira, que estava de plantão e não conseguia dar conta das outras ocorrências por causa do tumulto dos perueiros. Além de queimar ônibus e tentar invadir a regional, por duas vezes eles cercaram a delegacia. "Queriam nos intimidar, mas não conseguiram", disse o delegado.
Os motoristas e cobradores de ônibus também promoveram várias paralisações relâmpago hoje à tarde. O presidente do sindicato dos condutores, Gregório Poço, disse que as manifestações foram realizadas para exigir a aprovação de projeto na Câmara que impede demissões de cobradores por causa da instalação de catracas eletrônicas. Alguns ônibus tiveram os pneus esvaziados na Praça da Bandeira, Rua Santo Antônio e no Anhangabaú. (Colaboraram Rosa Bastos e Lilian Santos)


