Perueiro morre em confronto com a PM em Guarulhos e prefeito ameaça acabar com transporte alternativo
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2000
Por gabriela Carelli e Sebastião Moreira 
São Paulo, 28 (AE) - Um perueiro morto e um prefeito armado para defender-se da categoria. Essa é a situação de Guarulhos, na Grande São Paulo, que hoje serviu mais uma vez de palco para atos de vandalismo dos donos de lotações clandestinos. Às 8h45, ao tentar escapar de um bloqueio montado pela prefeitura na Praça 8 de Dezembro para apreender lotações ilegais, Anderson de Araújo Rodrigues, o Carioca, de 30 anos, acelerou a perua.
Foi perseguido por 15 minutos, até ser interceptado por veículos da Polícia Militar, da Guarda Civil de Guarulhos e da fiscalização da Secretaria dos Serviços Públicos, na Avenida João Jamil Jariff. Os dois PMs que participavam da perseguição dispararam seis tiros no carro de Carioca, que não levava passageiros, atingindo-o na cabeça. Internado às pressas no Hospital Municipal de Urgências, ele foi transferido para o Hospital Padre Bento, onde morreu, às 16h10. Cápsulas - Segundo informações oficiais, a polícia atirou para defender-se. Carioca já teria atirado, com o revólver calibre 38 que levava no veículo, em uma funcionária pública que participava da operação. A PM informou ter encontrado duas cápsulas do revólver deflagradas. "Se eles vêm com bala, revidamos com bala", anunciou o prefeito Jovino Cândido (PV). "Comprei um 38 e umas balas para mim também e estou andando num carro blindado", disse, revelando o clima de guerra na cidade. "Já mataram um motorista de ônibus; quantas mortes eles querem?"
A polícia encontrou na perua diplomas de cursos de tiro e de vigilante e um encarte do jornal "O Globo", de 1990, no qual Carioca aparece numa foto segurando um fuzil. A reportagem discorria sobre cursos de tiro. As informações constam do boletim de ocorrência, lavrado no 7.º Distrito.
Versão - No Hospital de Urgências, oito perueiros contaram outra história: a do desemprego e da violência da fiscalização. Segundo eles, Carioca estava em dificuldades financeiras. Em algumas noites, deixava de dormir, em Itaquaquecetuba, para poder trabalhar e rodava das 5 horas à meia-noite. Coquetel molotov - Esse não foi o único incidente envolvendo perueiros em Guarulhos hoje. Às 5h30, donos de lotações incendiaram um ônibus da linha Ponte Alta, da empresa Transguarulhense, usando um coquetel molotov. O cobrador Rubens Alves dos Santos, de 27 anos, desesperado, quebrou o vidro e pulou do carro, fraturando o braço.
O dono da Transguarulhense, Osiaz Vaz, chorou ao ver o estado dos ônibus. Ontem, às 21h30, outro veículo da empresa já tinha sido incendiado. A Viação Guarulhos também teve dois carros incendiados ontem. O prefeito garantiu que, caso o vandalismo continue, entrará com um projeto na Câmara para "acabar de vez" com o transporte alternativo na cidade.
"Ficamos só no amorzinho, aceitei os pedidos da categoria e elevei o número de regulares", afirmou. "Agora vai ser por meios legais ou na bala". Existem hoje em Guarulhos 676 peruas legalizadas e 800 clandestinas. A cidade já chegou a ter 3 mil lotações ilegais, número reduzido graças ao reforço da fiscalização.
A prefeitura informou que propôs, em novembro, quando foi depredada a sede do governo pelos perueiros, a regularização dos lotações bairro-a-bairro. Segundo o secretário de Serviços Públicos, Antônio Carlos Rodrigues, em reunião realizada Ontem os perueiros voltaram a descartar essa hipótese e prometeram "ir para o revide e radicalizar". (Colaborou Moacir Assunção)


