Pertence e advogado de Lopes foram colegas de universidade
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segunda-feira, 26 de abril de 1999
Por Maria Inês Nassif 
Brasília, 27 (AE) -O ministro Sepúvelda Pertence, do Supremo Tribunal Federal (STF), e um dos advogados do ex-presidente do Banco Central (BC), José Gerardo Grossi, foram demitidos da Universidade Federal de Brasília em 1968, depois de terem liderado, com outra dúzia de professores, um movimento de resistência ao regime militar que invadia o campus e punha abaixo o projeto educacional do professor Darcy Ribeiro.
Todos os outros professores pediram demissão em solidariedade aos demitidos. Pouco tempo depois, os dois foram cassados de suas funções no Ministério Público.
A cassação saiu no mesmo Diário Oficial. Grossi era chefe de gabinete de Hermes Lima. Sepúlveda Pertence trabalhava com Evandro Lins e Silva.
Todos foram cassados na mesma leva, junto com Victor Nunes Leal. Sem emprego - perderam o salário da universidade e o do Ministério Público, todos eles, quase ao mesmo tempo - montaram um escritório no edifício Arnaldo Villares, na capital federal.
De todos, apenas Sepúlveda voltou para o governo, nomeado para o STF no governo Sarney. Grossi continuou advogado, casou três vezes - a atual mulher, Adelaide, mãe do caçula Antonio Miguel, de 7 anos, é advogada, foi sua estagiária e hoje trabalha no mesmo escitório - e teve, ao todo, sete filhos. No meio do caminho, tornou-se fazendeiro.
Hoje divide o seu tempo entre o escritório de advocacia, duas fazendas de gado e uma paixão incontida pela poesia. E por Machado de Assis.
Grossi fuma dois maços de Camel por dia. Mineiro de Abre Campo, o reconhecidíssimo advogado é incapaz de, mesmo numa entrevista formal, falar com voz empostada ou dar informações com termos jurídicos. "Na Justiça, Francisco Lopes responderá a uma acusação correta: aqui na CPI, é só foguetório", dizia ele hoje, explicando a estratégia de defesa do ex-presidente do Banco Central, em meio a uma das centenas de telefonemas que recebeu de amigos que o cumprimentavam.
Um deles foi o ex-deputado Francisco Pinto. Preso no governo Geisel, por ter feito um discurso atacando o ditador chileno Augusto Pinochet, recebia na cadeia, religiosamente, a visita de quatro advogados amigos: Grossi, Sigmaringa Seixas, DAlembert Jacoud e Pertence. O outro a ligar foi o ex-ministro Odacir Klein. Grossi foi o seu advogado, e do seu filho, no episódio do atropelamento que resultou na morte de um operário em Brasília.
O caso mais famoso de Grossi, no entanto, foi a sua atuação na CPI do Orçamento. O assessor da Comissão de Orçamento
José Carlos Alves dos Santos, estava preso, suspeito do desaparecimento de sua mulher, Ana Elizabeth, e o advogado convenceu-o a dar uma entrevista para a revista Veja, denunciando um esquema de favorecimento existente na Comissão Mista de Orçamento. Na época, o preso acabou tornando-se, efetivamente, a principal testemunha de uma CPI que cassou mandatos, condenou parlamentares e expôs o Legislativo. No final do processo, a polícia encontrou o corpo de Ana Elizabeth, morta a machadadas, presumidamente por José Carlos. Grossi abandonou o caso, alegando que o cliente havia mentido para ele.
No caso de Chico Lopes, a estratégia não foi fazer falar
mas calar. E desclassificar as provas obtidas pelo Ministério Público, através do confisco de documentos na residência do ex-presidente do Banco Central.
Ele confessa que sabia do risco que Lopes corria, de ser preso por se recusar a depor, mas também admite que previa a decisão do STF, favorável ao pedido de habeas corpus. "Ele e qualquer outra pessoa têm o direito de ficar calado em situações que possam incriminá-lo", afirmou. "Qualquer coisa que ele falasse na CPI, viraria em um escândalo." Grossi, de 66 anos, foi quem entrou com o pedido de habeas corpus para Lopes.


