São Paulo, 16 (AE) - O consumidor está cético quanto à possibilidade de redução dos juros por conta do conjunto de medidas editadas na semana passada pelo governo para baixar o custo do crédito. Ele também não pretende voltar às compras tão cedo por causa dessas mudanças. O 13º salário, que poderia dar um fôlego extra para o comércio neste último trimestre, ao que tudo indica, será usado para quitar dívidas em atraso ou irá direto para a poupança.
"Vou comprar apenas lembrancinhas no fim do ano", disse a dona-de-casa Sandra Carminholi, de 38 anos, que planeja poupar a bonificação recebida pelo marido. No ano passado, ela conta que administrou da mesma forma essa receita extra e não se endividou.
Mãe de duas filhas, na sexta-feira, Sandra gastou cerca de R$ 60 com presentes para o Dia das Crianças, no ShoppingWest Plaza. "Mas comprei a boneca à vista", destacou a dona-de-casa
argumentando que prefere não assumir dívidas ou, no máximo, pagar em até três vezes sem juros e ainda com cheque pré-datado. É que ela considera a taxa de juros 6% ao mês abusiva. "Só vou voltar a comprar a prazo se o juro baixar muito."
Cautela e desconfiança também permeiam o consumo do casal de professores de Educação Física Jorge e Gisele Rodgerio Carlos. Há três meses com as mensalidades da casa própria em atraso, que somam R$ 2,7 mil, eles vão esperar que os juros efetivamente caiam na ponta para o consumidor antes de voltar às compras.
Jorge acha que o governo deveria ter exigido contrapartidas dos bancos para ter garantias de que eles reduzirão efetivamente os juros para o consumidor, ao criar mecanismos para reduzir o risco de crédito para essas instituições, como ocorreu na semana passada.
Cheque especial- No caso do cheque especial, por exemplo
cujas taxas juros dos bancos serão divulgadas na Internet, a partir do dia 5, para dar maior transparência ao sistema e permirtir que os clientes troquem de banco, Gisele não acredita nessa possibilidade. Há três anos no cheque especial, a professora conta que os bancos impõem tantas condições para o cliente abrir uma conta que, na prática, fica inviável trocar de instituição financeira.
O 13º salário do casal, que ficou inadimplente porque teve seus rendimentos reduzidos por causa da queda no número de aulas dadas, já tem destino certo. Eles disseram que vão pagar as dívidas. Mas ponderaram que, apesar da renda mais apertada, "não deixam de viver".
Viagem - Já o bancário Claudinei Moura, de 44 anos, planeja gastar o 13º salário em viagem de férias com os três filhos. "Quero ir para Comandatuba ou Ilhéus", contou. Nem mesmo as medidas anunciadas na quinta-feira para reduzir os juros animaram Moura voltar a comprar a prazo. Ele acha que a tendência é de os encargos financeiros recuarem, mas por enquanto o juro está num nível muito alto. "Prefiro comprar à vista."
Essa avaliação é compartilhada pela estudante Magda Masson Kalille, de 30 anos de idade, casada e com uma filha. Ela contou que parcela, no máximo, em três vezes sem juros as compras e que não assume crediários de longo prazo por se sentir insegura. Magda, que na sexta-feira percorria lojas do West Plaza fazendo cotação de preços de equipamentos de ginástica, disse que não acreditava que as novas medidas vão fazer os juros baixarem para o consumidor. "Não estou acreditando muito, eu não confio." Segundo ela, poderão ocorrer algumas mudanças nos próximos dois ou três meses e depois, na prática, nada irá para frente.

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