Jerusalém, 17 (AE-AP) - Na fria manhã ensolarada do dia das eleições de Israel, quando Benjamin Netanyahu emergiu de uma escola que serviu como local de votação, bem distante de Jerusalém, um jornalista perguntou ao primeiro-ministro o que havia saído errado.
A rápida resposta: "Quem disse que algo saiu errado?" Foi um paladar do estilo Netanyahu: Mesmo com pesquisas de opinião pré-eleitoral apontando para sua derrota nas mãos de Ehud Barak - um resultado confirmado hoje nas pesquisas de boca-de-urna - o primeiro-ministro de 49 anos estava desafiante, combativo - e baseando-se apenas em seus próprios instintos.
Estas mesmas características deixaram uma marca indelével em Israel nos três anos desde que eleitores colocaram Netanyahu no poder, deixando o país alienado dos amigos, um pouco mais próximo da reconciliação com inimigos e talvez tão profundamente dividido quanto nunca.
Na campanha eleitoral, como em sua passagem pelo governo, Netanyahu foi uma figura pública para consumo, ainda que enigmática.
Apesar de ser universalmente conhecido por seu apelido de infância - Bibi - poucos clamariam verdadeiramente saber ao que Netanyahu se apega.
Israel tem uma longa tradição de líderes que transcendem à vida e que deixaram sua marca pessoal na terra e em seu povo. Netanyahu pode carecer do toque de grandeza associado a pessoas como Golda Meir e Moshe Dayan, mas ele tinha um jeito de sensibilizar de alguma forma a todos.
Os que o apoiavam eram apaixonados. Os que o odiavam o faziam com igual paixão.
Mesmo seus inimigos reconhecem seu carisma. Com sua grande cabeça quadrada, sua voz medida, suas ternos cuidadosamente cortados - despistando o peso que acumulou durante seu tempo no governo - ele radia uma forma de força energética cega.
Ele consegue galvanizar multidões, como fez com grande efeito na campanha de 1996 com seus apelos aos "excluídos" - judeus originários dos países árabes, imigrantes da antiga União Soviética, colonos judeus e religiosos.
Mas ao alimentar discórdias e nutrir rancores, Netanyahu viu-se presidindo uma sociedade cada vez mais dividida - e uma coalizão feita refém de componentes em disputa. A defesa dos "excluídos" foi um efetivo instrumento de campanha, mas não o ajudou a governar.
Flashs da era Netanyahu apontam para um fracasso, muitas vezes desastroso, de ouvir advertências, uma propensão a humilhar subordinados, uma tendência a agir impulsivamente e então sair de mansinho de perto do estrago.
Escândalos parecem nunca ter colado.
Ele estava no cargo havia meros três meses quando - contra advertências do establishmet militar de Israel - ele ordenou a abertura de um túnel na murada Cidade Velha de Jerusalém, nas proximidades de um local sagrado muçulmano. Distúrbios intensos causaram a morte de muitas pessoas.
Alguns tropeços quase assumiram um caráter de farsa, se as repercussões não tivessem sido tão sérias. Em setembro de 1997, dois agentes do Mossad foram pegos numa atrapalhada tentativa aprovada por Netanyahu de assassinar Khaled Mashaal, um líder do grupo militante Hamas, na vizinha Jordânia.
Israel foi forçado a libertar o líder espiritual do Hamas, xeque Ahmed Yassin, em troca dos seus agentes capturados. As relações com a Jordânia, o único verdadeiro amigo de Israel no mundo árabe, foram seriamente danificadas e se mantêm frias até hoje. Mas o primeiro-ministro superou o resultante clamor público.
Algumas vezes ele pareceu não considerar as consequências de seus atos. Durante as negociações que levaram ao acordo de paz de Wye River, patrocinado pelos Estados Unidos, Netanyahu reclamou com amargura que não se poderia confiar que os palestinos iriam revogar uma carta pedindo a destruição de Israel.
O presidente Bill Clinton se ofereceu a ir à Faixa de Gaza e pessoalmente acompanhar a votação, e o primeiro-ministro aceitou - aparentemente não antecipando que a visita presidencial seria um enorme incentivo para as esperanças palestinas de ter um Estado.
Foi na questão das aspirações palestinas que Netanyahu, tão afamado por sua inteligência e controle da situação, talvez tenha perdido o contato com o pensamento dominante em Israel. Sob ele, o processo de paz naufragou mesmo enquanto um amplo consenso social emergia entre israelenses que alguma forma de autonomia palestina era inevitável e que o melhor a fazer era estabelecer seus termos.
O longo impasse - que durou virtualmente todo o mandato de Netanyahu - danificou sua imagem em Washington, onde qualquer líder israelense desfruta automaticamente de uma grande dose de boa-vontade.
Inicialmente, Netanyahu foi bem recebido nos Estados Unidos, onde era bem conhecido como enviado de Israel na Organização das Nações Unidas (ONU) e um articulado porta-voz de Israel durante a Guerra do Golfo de 1991.
Nas eleições desta segunda-feira, a administração Clinton estava tratando ele com cuidadoso mas inconfundível desdém. Nas capitais européias, a opinião contra Israel endureceu a ponto de os palestinos serem capazes de conquistar apoio para a reconhecimento de seu Estado num outro ano.
Muito sobre o caráter de Netanyahu pode ser traçado de sua família. Seu pai, um ideólogo sionista, foi descrito como duro e implacável, impiedoso como uma figura do Velho Testamento.
Seu idealizado irmão mais velho, Jonathan, morreu durante um ousado comando israelense em um avião sequestrado em Entebbe, Uganda, em 1976. Com sua morte, segundo a história, as esperanças da família concentraram-se em Benjamin.
Em 1984, ele era enviado de Israel na ONU. Eleito ao parlamento em 1988, Netanyahu era um porta-voz articulado e razoável de Israel durante a Guerra do Golfo, em 1991.
Mas ele chegou ao poder em um clima de extremismo e medo.
Os israelenses se lembram de sua dura retórica contra as políticas de terra por paz do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, assassinado por um judeu ultranacionalista em novembro de 1995. Antes do crime, extremistas manifestaram-se sob o comando de Netanyahu pedindo a morte de Rabin.
Apesar disso, ele venceu as eleições de 1996 por uma estreita margem, sendo um linha dura em relação à segurança em uma época na qual os israelenses estavam aterrorizados por uma onda de bombardeios urbanos realizados por militantes islâmicos.
O primeiro-ministro disse a entrevistadores para que não escrevam seu obituário político tão cedo. Mesmo que ele não seja mais primeiro-ministro, Netanyahu poderá continuar sendo uma força na coalizão política israelense.

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