Perseguição termina com adolescente morto pela GM em Londrina
Pai faz disparo em pizzaria, foge da abordagem embriagado, bate o veículo e acaba preso; família contesta versão sobre reação do filho
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de agosto de 2026
Pai faz disparo em pizzaria, foge da abordagem embriagado, bate o veículo e acaba preso; família contesta versão sobre reação do filho

Um adolescente de 15 anos morreu em uma ação da GM (Guarda Municipal) de Londrina no início da madrugada de sábado (1º), em um caso que envolve ameaça, disparo de arma de fogo e perseguição do veículo em que ele estava com seu pai. A abordagem só ocorreu depois que o veículo em que estavam colidiu contra um poste na Rua da Lapa, na área central. A GM alega que o disparo foi feito porque o adolescente segurava uma arma de fogo. A família contesta a versão, afirmando que ele sofria de crises epilépticas que o deixavam sonolento e pouco reativo.
O disparo foi efetuado em frente a uma pizzaria na Espírito Santo e com Rio de Janeiro, após o suposto autor do disparo ter feito ameaças à mãe do adolescente, de quem estaria separado.
De acordo com o BO (Boletim de Ocorrência), uma equipe da Guarda Municipal fazia patrulhamento pela Espírito Santo quando foi chamada por uma pessoa que relatou o ocorrido e informou a placa do veículo, uma Fiat Toro, que foi localizado pouco depois pelos agentes na Pernambuco.
Ainda conforme o registro policial, ao receber ordem de parada com sinais luminosos e sonoros acionados, o condutor desobedeceu à abordagem e iniciou fuga em alta velocidade pelas ruas do centro. A caminhonete avançou preferenciais em alta velocidade e chegou a ficar parada no cruzamento da Pernambuco com a Juscelino Kubitscheck, mas conseguiu escapar novamente da abordagem.
Na sequência, a Toro atingiu um Fiesta na rotatória próxima ao Moringão e, pouco depois, colidiu contra uma motocicleta no acesso à Rua Gomes Carneiro. O motociclista caiu no chão e sofreu ferimentos. Mesmo após a batida, o motorista continuou a fuga até perder o controle da direção ao tentar acessar a Rua da Lapa, colidindo contra um poste.
Disparo da GM
Após a colisão, o condutor, identificado como Volmir Dias, foi retirado do veículo, contido e algemado. Já o passageiro, Murilo Dias, de 15 anos, teria se recusado a desembarcar, conforme o BO. A Guarda Municipal afirma que, durante a tentativa de abordagem, ele levou a mão à cintura para sacar uma arma de fogo, mesmo após repetidas ordens para soltá-la.
Diante da situação, um dos agentes efetuou um disparo. O adolescente foi desarmado e ainda apresentava sinais vitais quando as equipes de socorro chegaram ao local, mas teve a morte constatada pelos profissionais do Samu. O motociclista atingido durante a fuga foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros e encaminhado à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Sabará.
A perícia recolheu um revólver calibre .22 que, conforme o boletim, estava com o adolescente. A arma continha uma munição deflagrada e seis intactas. O armamento permaneceu sob custódia da Polícia Científica para os exames periciais. Dentro do veículo, o perito visualizou uma garrafa de bebida alcoólica.
Na Central de Flagrantes, Volmir Dias apresentava, segundo a Guarda Municipal, cheiro etílico forte, fala pastosa e olhos avermelhados, tendo admitido o consumo de bebida alcoólica. Ainda de acordo com o boletim, ele tentou fazer o teste do etilômetro por três vezes, mas não conseguiu fornecer o sopro necessário, motivo pelo qual foi lavrado um termo de constatação de alteração da capacidade psicomotora.
Prisão e pedido de providências
Em seu depoimento durante a prisão em flagrante, Wolmir Dias assumiu a autoria do disparo na pizzaria e disse ter ficado com o revólver. Ele afirmou ao delegado de plantão que derrubou a arma dentro do veículo, mas negou que o filho a tenha pegado. “Deu crise nele na hora, ele tem epilepsia. A arma não estava com ele, estava comigo. Eu derrubei dentro do carro”, consta no depoimento.
Dias permaneceu detido até a manhã desta segunda-feira (3), quando foi solto na audiência de custódia, por não ter antecedentes criminais e não ter havido representação da companheira. Entretanto, ele permanecerá em liberdade com o uso de tornozeleira eletrônica e proibido de sair de casa à noite e aos finais de semana e feriados.
Em entrevista coletiva nesta segunda, a mãe do adolescente, Larissa Dias, demonstrou sua indignação com a morte do filho e exigiu o esclarecimento dos fatos que levaram ao disparo feito pela GM. Ela disse que Murilo teve seis crises convulsivas no dia do ocorrido e que esses episódios o deixavam inconsciente, sem reação e sem condições de descer do carro ou apontar uma arma para outra pessoa. “Ele não estava consciente, ainda não tinha noção do que estava passando.
Meu filho tinha que ter sido protegido e não tratado do jeito que foi tratado”, afirmou.
Ela não quis entrar em detalhes sobre o que levou ao disparo feito por Wolmir Dias ou sobre a situação civil entre os dois. “Nada justifica o que foi feito. Eu quero saber sobre o meu filho, não quero saber sobre o Volmir O que ele fez ou deixou de fazer, se ele, em algum momento, cometeu algum erro, isso é dele”, justificou. Murilo foi velado e sepultado no domingo (2), no Parque das Allamandras.
Guardas foram afastados
O secretário de Defesa Social de Londrina, coronel Ricardo Eguedis, afirmou que os guardas municipais envolvidos no ocorrido foram afastados e que a situação será esclarecida pela investigação da PCPR e pela Corregedoria-Geral do Município.
“A ocorrência foi apresentada para Polícia Judiciária, assim como as armas foram apreendidas e deixadas sob a guarda dela. Estamos [Secretaria de Defesa Social] fazendo documentação para a corregedoria da prefeitura. Temos protocolos de atuação, inclusive de uso de força, que é a extrema necessidade, mas não é o primeiro caminho”, afirmou.


Luis Fernando Wiltemburg
Repórter de Cidades.



