PERSEGUIÇÃO POLÍTICA - Proteção longe de casa
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quarta-feira, 22 de junho de 2011
Davi Baldussi <br> Reportagem Local 
''Ao Ministro da Justiça.''
''Eu, Oscar José Soares dos Santos, nascido no dia 30/12/1960, na cidade de Bissau, República da Guiné-Bissau, de nacionalidade Guineense, filho de Armindo de Melo Santos e Narcisa Teresa Soares Santos, portador do protocolo DPF/LDA/PR 08386.018627/2010-21, declaro que saí do meu País por motivos políticos depois de ter sido preso por aproximadamente dois anos por ter sido contra o governo e contra o Golpe de Estado que resultou numa guerra civil, após o assassinato do Presidente''.
Esta reportagem começa como o pedido de Oscar José Soares dos Santos, que vive em Sertanópolis (Norte), para ser reconhecido como refugiado no Brasil. Ele deixou seu país natal aos 7 anos com a família rumo a Portugal. ''Desde pequeno o meu sonho era ser diplomata'', brinca. Filho de pai português e mãe guineense, Santos viveu na Europa. ''Aos 15 anos retornei ao meu país, só para visitar. Mas já era outra realidade''. Naquele período, 1975, o país havia acabado de conquistar sua independência de Portugal e a instabilidade política tomava conta. ''Sofri racismo porque não tenho pele escura'', relembra.
Cursou Letras nos Estados Unidos, onde trabalhou como intérprete, chegando a ganhar US$ 60 por hora. Nessa época, tornou-se pai. ''Me envolvi com uma estudante francesa e como ao fim do curso ela teria que retornar para a França decidimos que seria melhor eu criar nossa filha, até porque tinha uma condição financeira melhor. Tinha carro do ano, casa bonita'', comenta.
Enquanto isso, Guiné-Bissau ainda buscava a estabilidade política. Apenas em 1994 foram realizadas as primeiras eleições livres no país. Quatro anos depois o presidente João Vieira foi deposto e teve início uma sangrenta Guerra Civil.
Em 2005, novas eleições levam Vieira de volta ao poder. ''Resolvi voltar e tentar realizar meu sonho de ser diplomata. Foi a pior escolha da minha vida'', lamenta. Em 2007, acompanhado da filha Cristine e de amigos de infância, Santos retornou a sua terra natal.
''Entrei para o Exército, pois lá, quem quer ser alguma coisa tem que estar entre os militares, são eles que mandam. Mas pouco depois houve nova tentativa de golpe e em em março de 2009 militares assassinaram o presidente Vieira. Eu era contra o golpe e fui preso com outros colegas. Ficávamos à espera de sermos fuzilados. Perdi amigos, alguns conseguiram fugir. Graças à ajuda de conhecidos e de um padre, que frequentava o quartel, consegui fugir após um ano e oito meses de prisão.'' O próximo destino dele, então, foi o Porto de Santos.
Um porto seguro
Ao aportar no Brasil, praticamente um mês após a fuga, Oscar Santos acreditava seria preso ao desembarcar. ''Melhor ser preso no Brasil do que aguardar a morte na Guiné-Bissau''. Para surpresa dele, ao descer do navio, ninguém o abordou. Já na capital paulista, o guineense conheceu um vendedor, que prometeu que arrumaria um emprego para ele.
Alguns quilômetros antes da cidade o vendedor parou num posto de gasolina. Santos foi ao banheiro. ''Quando voltei o carro tinha sumido, o que restava do meu dinheiro, documentos, roupas e meu notebook que tinha informações importantes foram levados. Entrei em desespero, tinha R$ 4,00 no bolso e a roupa do corpo. Nunca tinha dormido na rua''.
Em Londrina, o guineense procurou a Polícia Federal em outubro de 2010. ''Descrevi minha situação e fiz meu primeiro pedido de refúgio. A Cáritas me recebeu e pagou duas diárias num hotel. Um policial federal levou roupas para mim.'' Em seguida, foi para um abrigo. No final de dezembro foi para Sertanópolis, a convite de um comerciante da cidade.
Hoje vive num bairro isolado de Sertanópolis, em uma casa inacabada com banheiro, quarto e cozinha/sala, com eletrodomésticos antigos. ''O pessoal da Igreja me deu a geladeira, fogão, cama, colchão e vou vivendo. Pago R$ 130 de aluguel'', afirma.
Para sobreviver, o guineense já pintou mais de uma casa e realizou trabalhos de restauração na paróquia local. Também faz quadros e peças de madeira, que vende por R$ 80 cada. ''Quando estava em Londrina, tentei dar aulas de inglês, mas não me aceitaram. Deve ser porque estou com documentos temporários'', comenta ele, que também não conseguiu abrir conta em banco.
No final de maio, recebeu a notícia de que seu pedido de refúgio foi negado pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare). ''Fiz nova solicitação, mas não sei o que vou fazer se negarem de novo. Até agosto tenho documentos temporários. O que quero é ajudar outras pessoas, principalmente os jovens. E voltar a lecionar em breve.''
''O requerente: Oscar J. S. dos Santos.''


