Buenos Aires, 05 (AE) - "O espetáculo acaba de começar": este foi o comentário generalizado em Buenos Aires esta semana, quando Ricardo Bustos Fierro, juiz federal da província de Córdoba autorizou o presidente Carlos Menem a apresentar-se como pré- candidato na convenção interna do Partido Justicialista (o "PJ" ou também conhecido por "peronista"), que será realizada em maio e definirá a chapa que disputará a presidência do país contra a coalizão de oposição Aliança União Cívica Radical (UCR)-Frepaso.
Menem, que foi eleito pela primeira vez em 1989, e reeleito em 1995, está proibido pela nova Constituição de 1994 de ser reeleito pela segunda vez. Não resignados a esperar pela seguinte eleição presidencial no ano 2003, o grupo de fiéis seguidores de Menem, conhecidos como "os ultramenemistas", mobilizaram um exército de advogados e juízes para conseguir um parecer sobre se os constituintes de 1994 "excederam-se em suas funções" ao aprovar uma cláusula que impede que Menem possa disputar uma segunda reeleição.
Nos próximos dias, esse parecer será apelado na Câmara Nacional Eleitoral e depois na Corte Suprema.
O anúncio do juiz de Córdoba causou uma reviravolta no panorama político argentino. O espetáculo da campanha eleitoral agora tem uma presença cada vez maior do presidente Menem, que parece decidido a não deixar o poder tão cedo. A oposição protestou, e também outros integrantes do próprio partido de Menem.
Este é o caso do governador da província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde, que não está disposto a adiar seu sonho por causa de Menem. Duhalde formou uma aliança com um ex-herdeiro político de Menem, o ex-cantor de baladas românticas e ex-governador de Tucumán, Ramón "Palito" Ortega. Um dos dois será o candidato a presidente e o outro a vice. Tudo indica que pelo peso das duas forças políticas, Ortega ocupará a vice-presidência.
Opositores da Aliança UCR-Frepaso e "duhaldistas" consideram que Menem tenta violar a Constituição. Impassível, Alberto Kohan, secretário-geral da presidência, e fiel escudeiro de Menem há várias décadas, afirmou que segundo a Constituição, o poder judiciário é um dos poderes do país, e consequentemente, o presidente pode apelar a esse poder. Menem dissimula sua vontade de permanecer na Casa Rosada, e sustenta com um sorriso maroto que "somente quero voltar à presidência no ano 2003".
O governador Duhalde foi vice de Menem no primeiro governo e espera ser presidente desde o fim da década passada. Na época, era o cacique político dos municípios da Grande Buenos Aires. Menem lhe prometeu que em 1995 o apoiaria para a presidência. Mas em 1995, Menem adiou a promessa em favor de sua primeira reeleição. A especulação sobre uma nova reeleição no ano passado enfureceu definitivamente o governador da província onde concentra-se 40% do eleitorado do país. Duhalde poderia rachar o partido, afirmam analistas políticos.
Isso constituiria-se em um fato sem precedentes na história de um movimento político que sempre foi monolítico. A possibilidade de disputar a presidência concorrendo paralelamente ao peronismo de Menem já foi insinuada pelo governador. Assessores de Duhalde afirmaram à AE que se o lançamento de Menem for concretizado, não se descarta a formação de uma aliança com o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo.
O ex-ministro é candidato à presidência pelo partido que ele próprio criou há menos de dois anos: o Ação Pela República. Cavallo, tem a aprovação dos comandantes dos circuitos financeiros e a simpatia do empresariado, ao contrário de Duhalde, que é visto como populista pelos órgãos financeiros internacionais e muito "peronista à moda antiga" para o establishment argentino e internacional. Especula-se que Cavallo poderia ser chefe de gabinete de um hipotético governo Duhalde.
Sem Menem na corrida presidencial, o establishment divide seu apoio entre outros candidatos. O raciocíno dos analistas é que com Menem participando, todos os grandes empresários ficam de seu lado. E não é à toa: o mapa do novo poder econômico na Argentina foi desenhado a partir das privatizações ordenadas por Menem.
Pelo momento, a estratégia de Duhalde é a de ficar no peronismo, e prepara-se para enfrentar Menem na convenção do partido, se for confirmada a pré-candidatura do presidente. Mas Duhalde não ficará de braços cruzados, esperando que o carisma e o poder de Menem liquidem suas posibilidades: o governador começará uma série de processos políticos contra o juiz Bustos Fierro. Duhalde não descarta processar os próprios juízes da Corte Suprema. E a ofensiva do governador não terminaria aí.
"Teriam que ir presos", foi a frase do governador Duhalde sobre o que teria que acontecer com "os autores intelectuais e materiais dessa violação à Constituição". A declaração foi interpretada como um sinal de que se chegar ao poder, Duhalde não hesitaria em permitir um julgamento político a Menem.
O lançamento de Menem poderia ocorrer após a eleição provincial de Catamarca, no dia 21 de março. O candidato do PJ é Ramón Saadi, um velho aliado de Menem. Se vencer para governador, Menem aproveitará o impacto de uma segunda vitória provincial do governo para anunciar oficialmente sua candidatura. A primeira vitória ocorreu em dezembro, quando o PJ de Córdoba obteve o governo da província, uma das mais importantes do país. Essa vitória teve um sabor especial para Menem: Córdoba era um tradicional reduto da União Cívica Radical (UCR), e uma vitória do peronismo parecia improvável. Esse foi outro fator político que deu oxigênio à movimentação pela reeleição de Menem.
Daqui para a frente, a outra data fundamental é o 9 de abril, quando deverão ser registradas as chapas que concorrem à candidatura presidencial. Nesse intervalo, Menem analisará a repercussão popular de sua provável candidatura. Finalmente, a convenção do partido, que será no dia 9 de maio. Essa data será uma semana antes do décimo aniversário da primeira eleição presidencial de Menem, fato do qual o presidente saberá tirar proveito de seu simbolismo.
A crise brasileira foi, de certa forma, um presente dos deuses para o presidente Menem. A economia argentina é altamente dependente da brasileira, e por esse motivo, analistas econômicos consideram que este ano será recessivo para o país. Quanto mais as perspectivas econômicas da Argentina aparecem negativas, mais Menem se afirma no poder.
As pesquisas indicam que a população o considera mais preparado para conduzir o país no meio da crise do que seus opositores. Enquanto que nos tempos tranquilos Menem dedica-se ao jogo de golfe e outras atividades light, as crises - principalmente as que têm origem no exterior, como a crise mexicana ou brasileira - fazem que Menem tire da cartola suas melhores frases e armações políticas. Simultaneamente, a oposição inibe-se com as crises, e desaparece da mídia.
O principal think tank do país, Rosendo Fraga, considera que apesar do desgaste que implicam dez anos de poder, Menem continua ocupando o centro do palco político. Fraga sustenta que a economia será o eixo do debate político neste ano, ao contrário de 1997 e 1998, quando ainda era preponderante o debate sobre a ética política, a corrupção, temas que favoreciam a Aliança UCR-Frepaso.
A coalizão de oposição Aliança União Cívica Radical-Frepaso reage com lentidão à ofensiva pela segunda reeleição de Menem. Após um ano e meio na frente das pesquisas, começa a perder terreno para o peronismo. A oposição está assustada? Não exatamente. Mais do que isso, está perplexa, sem saber como reagir, enquanto o protagonismo político na TV e nos jornais divide-se entre Duhalde e Menem.
Fernando De La Rúa, candidato da Aliança UCR-Frepaso, e prefeito de Buenos Aires, que estará esta terça-feira em Brasília para reunir-se com o presidente Fernando Henrique Cardoso, fez um pálido protesto de que a segunda reeleição seria uma violação à Constituição. Até a semana passada, segundo as pesquisas, De La Rúa ainda era o provável próximo presidente do país. Mas a entrada de Menem na corrida presidencial poderá alterar o panorama.
O sinal mais evidente é que a mídia pouco se preocupou em saber o que pensava a momentaneamente inexpressiva Aliança. Parecia que a Aliança fosse uma agrupação política de outro país.

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