'Permanência de álvares no cargo ficou insustentável', diz FHC a comandantes
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de janeiro de 2000
Por Tânia Monteiro e Gilse Guedes 
Brasília, 19 (AE) - Num café da manhã, hoje, com os comandantes da Marinha, almirante Sérgio Chagastelles, do Exército, general Gleuber Vieira, e da Aeronáutica, brigadeiro Carlos Baptista, o presidente Fernando Henrique Cardoso explicou a eles que o ex-ministro da Defesa, Élcio álvares, não foi demitido por questões institucionais ou porque tivesse dúvidas quanto à seriedade dele, mas porque a permanência do então ministro no cargo se tornou politicamente insustentável.
O presidente falou ainda sobre o novo escolhido, o advogado-geral da União, Geraldo Magela Quintão, um homem que considera competente e muito leal. Por fim, pediu apoio dos comandantes para continuar tornando viável o projeto do Ministério da Defesa, com as mudanças que estão sendo feitas.
Os comandantes gostaram de ter sido chamados pelo presidente porque entenderam que foi um gesto de cordialidade e de respeito. Afinal, ele é o comandante supremo das Forças Armadas. O presidente mais falou do que ouviu, mas os comandantes expressaram as dificuldades orçamentárias que estão enfrentando e a necessidade de reaparelhar as forças.
O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso, que não participou do café da manhã, elogiou a indicação de Quintão, ao lembrar que ele possui um perfil adequado para o posto porque "tem uma noção de Estado muito acentuada". "É um cargo que tem atribuições bem definidas em lei, mas ainda necessita de um burilamento", declarou ele, depois de comentar que o fato de ele não ser político não esvazia a função.
"Embora os partidos políticos sejam importantes para dar projeção a uma pessoa, trata-se de um cargo muito mais voltado para as ações do Estado do que de governo." Na opinião de Alberto Cardoso, deste ponto de vista, o fato de ele não pertencer a um partido político fortalece a posição de ministro da Defesa. "O novo ministro deve entender a alma militar e saber que militar gosta de ser chefiado", completou.
Oficiais-generais consultados pela reportagem disseram que o melhor desse episódio foi o fato de Fernando Henrique ter indicado o sucessor de álvares ainda ontem. Eles estavam preocupados com o longo desgaste político a que álvares estava sendo submetido e com o fato de as forças estarem envolvidas nas intrigas políticas. Por isso mesmo, entenderam a demissão, e só temiam que a escolha do substituto se arrastasse por muitos dias
o que geraria instabilidade na tropa.
Os militares ressaltam que não cabe a eles julgar ações do presidente ou a escolha de nomes. Por se considerarem democratas e legalistas, avisam sempre que o comandante supremo é o presidente da República. Para ele, o que importa é que o ministro vista a camisa das Forças Armadas, brigando por verbas para reequipar os quartéis.
álvares não foi hoje ao Ministério da Defesa. Ele só volta ao prédio para a solenidade de transmissão do cargo. Passou o dia preparando o discurso de despedida e conversou com o Quintão. Também falou com os comandantes militares e continuou recebendo solidariedade de políticos pessoalmente e pelo telefone. O ministro da Justiça, José Carlos Dias, considerado um dos pivôs da demissão de álvares, disse hoje que não se sentiu ofendido com as afirmações do ex-ministro e considerou o episódio encerrado.
Dias afirmou ainda que o nome de Quintão foi "uma foi feliz escolha". O ministro das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga, limitou-se a dizer que álvares "perdeu condições políticas para ficar no cargo". Para ele, não houve demora na demissão do ministro da Defesa. "Foi no tempo correto."


