Pereira de Godoy: Para setor elétrico, o peixe que se dane
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quarta-feira, 11 de novembro de 1998
Marcos Cesar Gouvea 
O biólogo Manuel Pereira de Godoy, 76 anos, autor de Peixes do Brasil, do premiado Estudo do dourado na Bacia do Prata, entre outros, é uma das maiores autoridades em migração de peixe do mundo. É famoso seu trabalho no Rio Mogi-Guaçu, entre 1954 e 1963, com a marcação de 27 mil peixes, quando decifrou o fenômeno da piracema.
Godoy nasceu e vive na cidade paulista de Pirassununga (em tupi-guarani, lugar onde os peixes fazem barulho). Há décadas o professor vem lutando para sensibilizar as autoridades para a necessidade de dotar as barragens de escadas. É dele o projeto da única escada-tanque no Rio Paranapanema, a de Piraju, do Grupo Votorantim. Nesta semana ele informou à Folha do Paraná que, o grupo Votorantim - que sabe da importância das escadas para o peixe - já encomendou projeto de uma escada para uma nova barragem 30 quilômetros acima de Piraju.
O professor Godoy está pessimista. Segundo ele, a Cesp e todo o setor elétrico do País sabe da importância das escadas, mas prefere ignorá-las em seus projetos. Ele diz que o Rio Paranapanema é um rio de migração, um lugar de reprodução, mas as barragens cortam esse processo, impede a migração, a alimentação e mata os peixes. Segundo ele, a Cesp e outras empresas do setor, sejam estatais ou privadas, não dão importância à natureza e tentam resolver o problema com estações de piscicultura. Mas isso não resolve, diz Godoy, taxativo.
Manuel Pereira de Godoy afirma que o setor elétrico, para não gastar, não dá confiança, não se importa. Ele lembra que estados como São Paulo e Minas Gerais contam com legislação recente obrigando as hidrelétricas a ter passagem para os peixes migratórios. Legislação que estaria sendo olimpicamente ignorada.
Para o professor, falando o português claro, o setor elétrico tem uma política que pode ser resumida com a frase: O peixe que se dane. Ele afirma que a única coisa que o setor elétrico teme é a opinião pública. Caso as comunidades se levantem, os promotores curadores do meio ambiente entrem em ação, as coisas podem melhorar. Mas ele não esconde seu pessimismo, principalmente com o país em crise e com a economia em derrocada.


