O biólogo Manuel Pereira de Godoy, 76 anos, autor de ‘‘Peixes do Brasil’’, do premiado ‘‘Estudo do dourado na Bacia do Prata’’, entre outros, é uma das maiores autoridades em migração de peixe do mundo. É famoso seu trabalho no Rio Mogi-Guaçu, entre 1954 e 1963, com a marcação de 27 mil peixes, quando ‘‘decifrou’’ o fenômeno da piracema.
Godoy nasceu e vive na cidade paulista de Pirassununga (em tupi-guarani, ‘‘lugar onde os peixes fazem barulho’’). Há décadas o professor vem lutando para sensibilizar as autoridades para a necessidade de dotar as barragens de escadas. É dele o projeto da única escada-tanque no Rio Paranapanema, a de Piraju, do Grupo Votorantim. Nesta semana ele informou à Folha do Paraná que, o grupo Votorantim - ‘‘que sabe da importância das escadas para o peixe’’ - já encomendou projeto de uma escada para uma nova barragem 30 quilômetros acima de Piraju.
O professor Godoy está pessimista. Segundo ele, a Cesp e todo o setor elétrico do País sabe da importância das escadas, mas prefere ignorá-las em seus projetos. Ele diz que o Rio Paranapanema é um rio de migração, um lugar de reprodução, mas as barragens cortam esse processo, impede a migração, a alimentação e mata os peixes. Segundo ele, a Cesp e outras empresas do setor, sejam estatais ou privadas, não dão importância à natureza e tentam resolver o problema com estações de piscicultura. ‘‘Mas isso não resolve’’, diz Godoy, taxativo.
Manuel Pereira de Godoy afirma que o setor elétrico, para não gastar, ‘‘não dá confiança, não se importa’’. Ele lembra que estados como São Paulo e Minas Gerais contam com legislação recente obrigando as hidrelétricas a ter passagem para os peixes migratórios. Legislação que estaria sendo olimpicamente ignorada.
Para o professor, ‘‘falando o português claro’’, o setor elétrico tem uma política que pode ser resumida com a frase: ‘‘O peixe que se dane’’. Ele afirma que a única coisa que o setor elétrico teme é a opinião pública. Caso as comunidades se levantem, os promotores curadores do meio ambiente entrem em ação, as coisas podem melhorar. Mas ele não esconde seu pessimismo, principalmente com ‘‘o país em crise e com a economia em derrocada’’.

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