Nova York (AE-NEWSWEEK) - É um sábado de verão em Notre Dame, e a catedral está lotada. Do lado de fora, uma multidão encharcada espera pacientemente na chuva parisiense. Do lado de dentro, várias pessoas esperam nas filas dos confessionários e lutam por um espaço para acender velas votivas. Mas, apesar das multidões, os padres de Notre Dame não estão contentes. "São uma ferida, todas estas pessoas", diz o padre Claude Nicolas. "São um veneno. Há muitos deles."
Seria diferente, é claro, se a multidão tivesse fé, mas na maioria, ela é composta por turistas: nos dias de hoje, apenas uma em cada 50 pessoas vão a Notre Dame para rezar. Fora das portas da catedral, uma multidão assiste a um bizarro ritual de passagem. Para celebrar os últimos dias de liberdade antes de seu casamento, Aurelie L, usando um traje de ginástica aeróbica, cercada por amigos, armados com pinos de boliche, pés-de-pato e pesos, faz exercícios na frente de Notre Dame. O casamento de Aurelie, que será daqui a três semanas, será realizado em uma igreja por convenção, e não por fé. "Só porque me casarei em uma igreja não significa que meu casamento irá durar mais", diz ela, ainda sem fôlego devido à série de exercícios. "Deus? Isso é para o dia do casamento."
Não é à toa que o padre Claude e seus colegas clérigos de toda a Europa estão preocupados. Julgando pelas estatísticas das pessoas que rezam, a Europa é um continente pós-cristão. Enquanto as igrejas na América Latina, áfrica e Estados Unidos estão repletas de adoradores, as da Europa - desde as capelas de vila até alguns dos mais sublimes trabalhos de arquitetura do mundo - têm sorte de atraírem turistas. Oitenta e nove por cento dos britânicos não se preocupam em ir à igreja regularmente. "A vida não é tão dramática na Grã-Bretanha como na América Latina ou na áfrica Central, então talvez não seja necessária uma revelação cristã para interpretar isso", disse o Arcebispo de Canterbury, George Carey, em um discurso feito na primavera para avisar os colegas anglicanos de que a Igreja da Inglaterra está "a uma geração da extinção".
Que chance tem o velho Deus cristão - um homem branco com uma barba branca - em uma sociedade orientada pelos jovens? Por que as preces deveriam importar num mundo que encontrou o poder de clonar ovelhas e construir sua própria cyber-eternidade na Web?
Conforme surgem os símbolos universais, o sinal da cruz parece ter menos poder do que o símbolo da Nike e outros do capitalismo global. "A cristandade é baseada na família", nota David Martin, um sociólogo da religião da London School of Economics. "Nós devemos conviver com nossos irmãos e irmãs e com o Pai Celestial e com a Nossa Senhora. É bem diferente de bater em outras pessoas no mercado acionário". Apesar do cristianismo e do capitalismo terem existido simbioticamente durante séculos, a nova Era da Informação abala os laços antigos. O cristianismo parece não poder competir contra os ícones de uma cultura pop e consumista.
No começo da primavera as laterais dos ônibus de Londres traziam a mão de Deus do teto da Capela Sistina, de Michelangelo
segurando um hambúrguer com muzzarella do McDonalds. Quando uma agência de pesquisas alemã pediu para um grupo de pessoas com menos de 30 anos que escolhesse a pessoa mais respeitada, o Papa ficou com 11% de aprovação - apenas um ponto percentual a mais do que Cher.
Em seu sermão de Ano Novo, o cardeal Joachim Meisner, arcebispo de Colônia, a mais rica diocese cristã, declarou que "em nossa sociedade, Deus não é mais um tópico". Isso é um pouco de exagero. Relatos da morte de Deus têm sido superestimados; e em cada evento, o declínio da religião organizada na Europa foi declarado no último século. Mesmo antes da carnificina da Primeira Guerra Mundial e dos horrores do fascismo - acontecimentos que para muitos europeus são os que mais abalaram sua fé - o comparecimento às igrejas já estava se tornando monopolizado por mulheres e pelos idosos. Mais recentemente, os europeus caracterizaram a religião como um abrigo para a hipocrisia sexual e uma força por trás do ódio étnico desde a Irlanda até os Balcãs. Mesmo assim um grande respeito pela fé perdura. Alguns especialistas dizem que o secularismo atingiu seu pico nos anos 80. De acordo com o Centro de Estudos de Novas Religiões, baseado em Turim, 90% dos europeus pensam que existe um Deus - 20% a mais na última década.
Os europeus podem não estar indo à missa aos domingos, mas pelo menos alguns deles passam suas férias em peregrinações em retiros espirituais. Eles podem não ter decorado as Escrituras, mas lêem avidamente material sobre religião.
Os franceses estão mergulhando na Enciclopédia das Religiões do Mundo, de dois volumes, um best seller de 1997; os irlandeses e alemães estão comprando livros sobre o Catolicismo Céltico, e os italianos recentemente descobriram um gosto pelo Budismo. Os jovens europeus, em particular, estão criando crenças misturadas
forjando moralidades nas quais eles possam se encaixar. Ambulantes na cidade de peregrinos espanhola de Santiago de Compostela vendem chapéus rastafári, incenso hindu e camisetas de Kurt Cobain junto com os crucifixos. Veritas, a principal livraria católica romana de Dublin, faz seus melhores negócios vendendo títulos como "Sopa de Galinha para a Alma". Os países que até uma geração atrás estavam no coração do Cristianismo, estão hoje, segundo o sociólogo britânico Grace Davie, passando por uma era de "acreditar, mas não pertencer". Cada geração tem o Deus ou Deuses que merece. A religião européia hoje espelha a vida social e econômica. Em uma era individualista, os europeus podem não estar se integrando a uma igreja; mas eles também não estão integrando sindicatos nem partidos políticos. E para muitos europeus modernos, pelo menos alguns dos propósitos da religião foram apropriados pelo bem-estar social; depois da Segunda Guerra Mundial, a caridade, identidade e comunidade pelas quais milhões uma vez esperaram que a igreja provesse foram dadas pelos burocratas do governo. "Existe uma ética cristã secularizada no Estado", nota Martin, da LSE. "Então, por que se importar em ir à igreja?".
A Europa mudou de uma maneira profunda. Com 6 milhões de muçulmanos no velho continente, e populações que praticam as grandes religiões da ásia, a "Europa" não é mais congruente com o "Cristianismo". Assim como as certezas da esquerda e da direita entram em colapso com o muro de Berlim, o mesmo acontece com a noção de cristianismo como âncora moral da Europa. Com a nova gama de escolhas espirituais, o cristianismo se tornou apenas outra alternativa de estilo de vida - tão estranha quanto o ateísmo ou o vegetarianismo foram para os avós dos modernos europeus. "Eu apenas penso em Deus quando estou em uma bela igreja na Itália, ou quando vejo a guerra do Kosovo na TV", diz Julia Flittner, uma garçonete de 22 anos de Berlim, que diz não acreditar no Deus cristão - e não sabe se algum amigo dela acredita. "Isso é muito ruim. Tenho certeza de que acreditar pode dar muita força. Posso ver isso quando olho para minha avó."
Nos países católicos da Europa, a religião é um pouco como um fantasma: fantasmagórico, invisível, mas aparecendo sempre com frequência - geralmente em tempos de sacramento ou escândalo.
A maioria dos bebês espanhóis, italianos e irlandeses são batizados; 95% dos funerais europeus são religiosos. Mas para muitas pessoas, estes rituais são apenas relíquias. As seções infantis das lojas de departamentos de Dublin têm fileiras inteiras de véus e trajes para a primeira comunhão. Os pais gastam até 200 libras nos trajes, mas não porque é uma ocasião sagrada. "É um dia fora de casa", disse um vendedor de Dublin. "Para os pais, importa qual criança terá a melhor aparência". Poucas destas crianças irão crescer e se tornar padres ou freiras: em 1997, na Irlanda, apenas 53 homens se tornaram padres, e só 32 irlandeses entraram para ordens religiosas - apenas metade dos números de 1992. Na década passada, a confiança irlandesa em sua Igreja Católica não apenas foi abalada, como foi na Itália, Alemanha e França. A fé da Irlanda foi devastada por uma série de escândalos sexuais. Só nos últimos meses, uma freira foi considerada culpada por ajudar em um estupro e aguarda a sentença em Dublin, enquanto um padre do condado de Wexford suicidou-se depois da revelação de abusos de crianças em sua paróquia. Aqueles com idade suficiente para lembrar de uma Irlanda onde os pais esperavam que seus filhos crescessem para se tornarem padres se sentem particularmente traídos. O dublinense Alan OConner se recusou a ir à missa. "Pervertidos, eles são todos pervertidos", ele diz. "Por que eu deveria confessar todos os meus pecados para um pervertido?"
Mais corrosivo do que o anticleriscismo entre os de meia-idade é a indiferença entre os jovens. Temores de ofender os secularistas significa que mesmo nas escolas católicas, as aulas de religião tendem a ensinar mais o multiculturalismo e "aptidões para a vida" do que histórias da Bíblia. Quando o dublinense Phillip Kenny pediu que sua filha Grace, de 8 anos, que foi Moisés, ela olhou para ele com uma expressão em branco. Na França, um Estado rigorosamente secular com uma forte tradição anticlerical, a igreja moderna não é nem poderosa o suficiente para ser desprezada. "A religião não me interessa", disse Caroline, de 17 anos, uma estudante presente na parada do Orgulho Gay em Paris. "É só fantasia."
De certa maneira, os católicos da Europa começaram a agir como protestantes; eles tratam a religião apenas como um assunto pessoal. Para os católicos, escolados em uma fé que defende o ritual e a comunidade, a entrada em uma era de "acreditar sem pertencer" pode ser difícil. "Quando estou triste, não preciso que outros pensem em Deus", disse Jan, um estudante alemão. "Mas você não pode celebrar uma festa católica sozinho." Quanto às preces, a maioria dos europeus acha que elas devem ser feitas em particular.
Na Grã-Bretanha, o arcebispo de Canterbury lutou por meses com Downing Street pela permissão para fazer uma prece de 90 segundos na abertura da Cúpula do Milênio, na véspera do Ano Novo. "Se não houver um componente cristão na celebração, não estarei lá", ele disse. "Hoje na Europa a religião é mais presumida do que articulada", nota a socióloga Davie. Ela cita uma pesquisa recente que perguntou aos britânicos se eles acreditam em Deus. A maioria respondeu que sim. A questão seguinte: "Você acredita em um Deus que pode mudar o curso dos eventos na Terra?". A resposta mais frequente: "Não, apenas no Deus normal."
Até mesmo aqueles europeus que vão à igreja de vez em quando o fazem por questão de cultura, não fé. Os pais de Nada Danic emigraram da ex-Iugoslávia para Yorkshire e a criaram para respeitar as tradições da Igreja Ortodoxa Sérvia. Ela ainda obedece, de certo modo. "Eu irei à igreja, rezarei uma oração e acenderei uma vela", diz a proprietária de um bazar. "Mas eu faço isso por minha família e minha herança."
Danic acha que sua juventude passada na beleza selvagem de Yorkshire fez com que ela encontrasse o transcendental não na igreja, mas na natureza. "A religião não é fazer doações ou venerar em um local em particular ou beijar uma cruz", diz ela. "É tocar o seu coração e seu espírito e envolver sua vida."
As igrejas estatais do norte da Europa transformaram-se um pouco em repartições públicas: instituições governamentais que você visita em tempos de necessidade, mas não locais nos quais você quer passar um tempo. Na Alemanha, o Estado coleta um imposto obrigatório da Igreja - 9% de sua renda declarada - de todos os registrados, batizados protestantes e católicos.
Crucifixos adornam salas de aula, membros do clero compõem câmaras e aprovam programas de rádio e televisão e as igrejas podem anunciar gratuitamente em emissoras de TV. Mas apesar de todo o apoio institucional, apenas 12% dos alemães vão à igreja regularmente. Quando o Instituto EMNID perguntou aos jovens alemães em qual instituição eles mais confiavam, a igreja ficou em quinto lugar, atrás do Greenpeace, da polícia, das cortes e da Anistia Internacional.
Na Suécia, a Igreja Luterana será desestabelecida no ano que vem, enquanto menos da metade dos suecos dizem acreditar nela. Mas velhos hábitos demoram a morrer: 85% da população ainda pertence à Igreja da Suécia e paga seus referentes impostos. Por quê? Talvez porque, de acordo com um estudo recente, os suecos gostam de usar os prédios da igreja para buscar paz e alívio para a vida diária. E aí, talvez, esteja a salvação da igreja.
À medida que mudanças econômicas na Europa moderna prosseguem, as instituições que antes tomavam o lugar da religião são desafiadas novamente. A generosidade dos estados de bem-estar após 1945 está sendo atacada; em uma sociedade cada vez mais móvel, as antigas redes de sustentação das famílias e bairros atrofiaram. E isto explica o motivo pelo qual tantos clérigos europeus se concentram em motivos pastorais em vez de espirituais.
"Nos dias de hoje, mais e mais as pessoas estão vindo apenas porque precisam ser ouvidas e compreendidas", disse o padre Claude, de Notre Dame. "Algumas pessoas vão ao médico por isso, outras vêm aqui."
Em um exemplo quase auto-paródico da curiosa situação da religião européia, os metodistas britânicos discutiram em sua conferência anual, realizada na semana passada, se permitiriam que pessoas aderissem à igreja sem acreditar em Deus. Isto talvez seja um reconhecimento de que não são conversões doentias que levam as pessoas à igreja, mas uma noção de como eles podem obter ajuda quando necessário. Na opinião do padre Claude, sentado atrás de uma cabina de vidro em Notre Dame, esta divisão entre igreja e fé é o insulto final. "Isto é uma cova", lamenta, observando a coluna de turistas na igreja. Pode ser. Mas eventualmente, todas as almas precisam de combustível.

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