'Perdi parte do corpo; ficou minha vida'
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2004
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
''Tem hora que nem lembro que passei por tudo aquilo''. O desabafo é de Marlene Rainer, de 49 anos, funcionária de um escritório de advocacia em Londrina. Pouco mais de quatro meses depois de retirar o seio esquerdo, por causa de um câncer na mama, sua rotina mudou - hoje ela tem que tomar um remédio que lhe causa náuseas diariamente, fazer fisioterapia e exames mensais no Hospital do Câncer. Parte dessa rotina terá que ser mantida pelos próximos cinco anos, prazo em que ela poderá ser considerada curada. Mesmo assim, Marlene se considera uma vitoriosa: ''Tiraram um pedaço do meu corpo, mas ficou a minha vida'', afirma, confiante no futuro.
Em janeiro desse ano Marlene percebeu que o seio começou a endurecer. Achou estranho e procurou o médico do posto de saúde, que solicitou uma mamografia. ''Estranhei, porque nunca tive nada e de repente meu seio endureceu'', conta. Quando o resultado da mamografia saiu, veio o susto: ''Foi aquele desespero, já queriam me levar para o hospital, e eu ainda falei 'calma, gente, deixa eu ir em casa tomar um banho''.
A consulta no Hospital do Câncer foi marcada no mesmo dia e Marlene examinada por uma junta médica. ''Eu fiquei desesperada, mas o tempo inteiro tinha fé e falava 'não é, não é''. O primeiro exame apresentou resultado inconcluso, mas, a biópsia indicou a cirurgia, que foi realizada em julho. ''Na noite em que fui internada eu chorava e não acreditava, aquilo para mim era terrível, mas pensei: 'Deus existe e se tenho que passar por isso, outra pessoa não passa''. O tumor retirado, segundo Marlene, já estava ''do tamanho de uma laranja''.
No dia seguinte à cirurgia foi liberada, mas por causa de uma dor de cabeça muito forte e por ter desmaiado por duas vezes, foi novamente internada no hospital, onde ficou por mais três dias. ''Eu tinha perdido muito sangue e estava com falta de oxigênio no cérebro. A médica disse que se eu demorasse mais uma hora iria morrer'', conta. Durante dez dias usou um dreno onde o seio havia sido retirado e, um dia depois que tirou os pontos, voltou a trabalhar. ''Toda minha família me deu muita força e fiz muita corrente de oração, foi isso que me ajudou''.
Mesmo assim, Marlene conta que, no começo, chorava muito: ''eu me olhava no espelho e me achava um monstro, justo eu que sempre tive orgulho do meu seio, sempre usei roupa decotada''. Hoje, usando sutiã com enchimento, blusa decotada e com aparência jovial, ela já pensa em uma cirurgia plástica de reconstrução do seio. ''Meu médico diz que é preciso pensar na saúde e deixar a estética mais para frente, mas eu quero muito fazer essa plástica'', afirma.
Sem o costume de fazer exames ginecológicos periódicos, hoje, Marlene recomenda a prática para todas as mulheres: ''eu não me cuidei, mas agora sei o quanto isso é importante. O que posso dizer a outras mulheres é que se cuidem, e que tenham muita fé, mesmo que tenham que tirar o seio, que não desanimem, que vivam a vida felizes''.


