Na audiência de ontem na praça de São Pedro, antes de partir para o Brasil, o papa João Paulo 2º pediu que todos rezassem pelos frutos de sua viagem. Falando em português a peregrinos de vários estados brasileiros, disse: ‘‘Será uma oportunidade inigualável de reflexão, de testemunho e de oração para que tantas famílias cristãs e não cristãs se compenetrem sempre mais nos valores centrais da mútua doação dos cônjuges e no amor pelos filhos que estão na base destes núcleos prioritários da sociedade humana’’.
A viagem também faz parte da estratégia da Igreja para recuperar parte do espaço que vem perdendo para as seitas evangélicas. Em documento enviado ao Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), divulgado no Rio, o pontífice deixou clara sua preocupação com a perda de fiéis e a falta de evangelizadores no continente.
Há também um componente político. O pontífice será recebido na Base Aérea do Galeão pelo primeiro escalão do poder brasileiro, tendo à frente o presidente da República. Domingo passado, no Campo de Marte, em São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, já em campanha pela reeleição, foi ovacionado por cerca de um milhão de evangélicos no encerramento do Congresso Mundial das Assembléias de Deus. Ao final do pronunciamento, gritou ‘‘aleluia’’ com os braços para o alto.
Amanhã, às 10 horas, eles voltam a se reunir para uma conversa mais demorada, no Palácio das Laranjeiras. Os dois vão tratar de vários assuntos e não está descartada a possibilidade de tratarem do projeto de lei que pede a aplicação do artigo 128 do Código Penal e autoriza o aborto em casos de estupro ou risco de vida para a mãe.
Sobre o aborto, João Paulo 2º deverá falar em mais de um dos oito discursos que fará no Rio de Janeiro. Ele também abordará temas polêmicos que nos últimos dias ganharam destaque no noticiário, como a reforma agrária. O pontífice pretende falar da questão da terra dentro da doutrina social da igreja que, no Brasil, se divide sobre o assunto. O encontro com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que nasceu dentro da Igreja, foi vetado pelo arcebispo do Rio, dom Eugenio Sales - principal responsável pela organização da visita de João Paulo 2º. Mas o MST decidiu não fazer manifestações de protestos. O mesmo acontecerá com o Movimento das Mulheres a favor do aborto. Embora as militantes contestem a igreja, contrária ao projeto que tramita no Congresso, não farão qualquer manifestação contra o Santo Padre.

mockup