Percival de Souza
Antenado, ao longo desta semana, nos acontecimentos do mundo visível e do submundo, em particular nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, percebi claramente a força galopante, e quase sempre triunfante do crime organizado.
Há verdades que são evidentes, ainda que não possam ser formuladas, diria Saint-Exupery. A uma semana das eleições, o conhecido refrão que aponta para a vontade política como forma de alcançar resultados e produzir efeitos saneadores, temos que nos debruçar sobre a questão. É impressionante o número de candidatos, em todo o País, que acenam com a possibilidade de fazer algo concreto para melhorar as coisas na vida pública de cada cidadão, tirando de cena os canastrões e priorizando o interesse público.
Existem poucas coisas tão organizadas em nosso País como o crime. Não é preciso ficar pensando em filmes de gângsteres e imaginar que os duelos entre o bem e o mal seriam entre contemporâneos clones de Al Capone e Eliot Ness. Não: a nossa realidade específica aponta para determinados níveis de sofisticação uma espécie de adaptação dos moldes globalizantes para a vida do crime. Sim, na bandidagem de hoje já existem os excluídos - os desdentados, os que se apresentam mal, não sabem falar direito, não sabem se comportar em público e, pior, chamam a atenção em qualquer lugar por onde andem. Esse estão fora do mercado organizado e têm que se conformar com o rótulo de pés-de-chinelo, absolutamente incapazes de uma ação ousada, planejada e lucrativa.
É o caso, por exemplo, da ladroagem. Furto, roubo, apropriação indébita, seja o que for, são práticas hoje costuradas com certa maestria por grupos que sabem exatamente que objetivo querem alcançar. É o caso dos automóveis, hoje movidos por verdadeira indústria que, nacional e internacional, estende suas teias pelos Estados, Paraná inclusive, e pelas fronteiras.
O crime neste caso é organizado porque um se apropria do bem, outro prepara a nova documentação, um faz o transporte e alguém mantém os contatos de entrega - tudo isso tendo como corredor de passagem uma eventual fraude contra seguros ou um intercâmbio com drogas.
Nessa mesma característica estão o tráfico e seus barões. Investem pesado, como se aquilo fosse o negócio mais normal do mundo, e mantêm regras ortodoxas. Por exemplo, não se acredita, jamais, em eficiência policial. Se alguém caiu, isto é, foi preso, só pode ter sido por conta da delação. O culpado deve ser identificado, localizado e morto. Quanto à entrega da mercadoria, já são feitos seguros obrigatórios. Se não chegar ao destino, alguém tem que indenizar.
No mesmo esquema, seguem os trajetos de armas e munições, assassinatos de incômodos, tudo no estilo de chefões e grandes capos. Diante desse quadro, quase uma encenação processual - isto é, constrói-se uma história diante de determinados fatos, mente-se descaradamente e a verdade acaba sendo do conhecimento apenas de algumas partes. Esta, por sinal, é o motivo de fatais acertos de contas nas prisões ou, misteriosamente, nas ruas.
Há mais, porém. O crime organizado somente se incrementa com a participação de policiais. Note bem: estou falando de policiais, pessoas, e não Polícia, instituição. Aqui entra outra necessidade de vontade política: a construção do organismo responsável pela segurança pública com competência, preparo técnico e, evidentemente, reconhecimento salarial. Sim, porque pretender que o policial seja tudo ao mesmo tempo - sherlock, conselheiro, sociólogo, psicólogo, psiquiatra, assistente social e até ministro religioso - e destinar-lhe um salário de desqualificado, não passa de cinismo puro, uma hipocrisia inaceitável.
Pois bem: a uma semana de 4 de outubro, considerando-se que este assunto é do interesse de todos, é preciso ver o que fazer, mas para valer, para colocá-la em seus devidos parâmetros. Porque o crime já possui setores mais do que organizados. São setores incrustrados, poderosos, intocáveis. A sociedade é que está desorganizada - porque não sabe, porque nada quer, porque está sendo omissa.





