Luzes, câmeras, ação: a prisão de Rafael, o jovem de 25 anos que já foi vocalista e líder do grupo Polegar, amarga no cárcere da 95ª DP, em Heliópolis, São Paulo (vizinho da maior favela da cidade), a triste aventura de tentar assaltar para arranjar o dinheiro que sustentasse o seu vício ou, se preferirem os clássicos, a sua dependência química.
Vamos examinar este caso no seu mais profundo significado, bem longe do oba-oba que o assunto virou pela TV aberta que, numa de suas piores fases de nossa História, injeta na cabeça dos jovens a mentira da receita para eventual sucesso na vida: cantar, jogar futebol ou rebolar. É demais. Ou melhor: é de menos. O caso Rafael tem o seu próprio epicentro, que gira em torno de um crime contra o patrimônio e o uso de drogas.
De repente, o caso do ex-polegar inspirou coletivamente os pauteiros das redes de TV para as matérias sobre os males causados pelas drogas e os graves riscos de sua dependência. Isto, por sinal, foi muito bom, considerando-se que as substâncias entorpecentes possuem ardorosos defensores, espalhados por todos os cantos, mas que numa hora dessas preferem recolher-se ao silêncio, mesmo porque nada teriam a dizer.
Então é isto: alguém se torna dependente (no caso de Rafael, o maldito crack) e faz de tudo para conseguí-lo, inclusive recorrendo ao crime. Veja a idade do rapaz: apenas duas décadas e meia. Está na faixa 18-25, que estabelece a média de idade da população carcerária brasileira. Mais: a essa juventude, ‘‘fugidia e frágil’’, como já escreveu Margherite Yourcenar em Memórias de Adriano, mesma obra onde a escritora ensina: o verdadeiro lugar do nosso nascimento é aqueles onde lançamos um olhar inteligente sobre nós mesmos.
Vamos buscar esse olhar inteligente. Rafael, jovem dependente iludido, faz a integração droga-roubo, aliás um vínculo indissolúvel na classificação criminal que predomina nas prisões. Na prática, não reincidir significa não voltar a roubar ou furtar e a droga sempre aparece como lubrificante da violência.
As origens desse mergulho no vácuo e chegada à prisão lembram, como as histórias se repetem, o romance de Oliver Twist, nome de um menino em um asilo, sem pai e sem mãe, batizado às pressas, criado pela imaginação de Charles Dickens, grande escritor inglês. Oliver era como esses meninos que vivem em bandos pelas cidades. Podem até ter coração bom, mas são rodeados de arrogância, cinismo, de avareza, de maldade. A imaginação de Dickens colocou esse menino em Londres, em condições semelhantes à nossa realidade. O livro foi escrito no século passado. A nossa realidade é de passagem de milênio.
A lição com olhar inteligente que precisamos tirar desse episódio é que o caso Rafael não é único. Como um dia já teve os seus dias de fama, adquiriu interesse dos meios de comunicação e da sociedade, mas existem anônimos, às centenas, espalhados pelos cárceres com histórias mais ou menos semelhantes. O assunto precisa ser abordado de maneira realmente inteligente, e não através dos escapismos próprios dos ‘‘achólogos’’, aqueles que dão palpites sobretudo e raramente encontram ou apontam para alguma solução.
A lição é simples, um verdadeiro feijão-com-arroz. Divide-se em duas partes; a primeira mostra, demonstra, prova que a droga não é bom negócio na vida de ninguém. Chega de conversa fiada sobre esse assunto. A segunda simplesmente mostra que roubar não é profissão. É incrível ter que escrever isto, mas muita gente ainda busca justificar atos anti-sociais como teses distantes dos fatos. Polegar é um caso apenas, diluído entre tantos. No olhar inteligente sobre o assunto, carpos, metarcarpos, falanges podem conduzir a honradas e vitoriosas mãos, ensinando a arte da vida, trilhar o seu caminho e ao fim, quem sabe, permita o bater de palmas pelo sucesso alcançado.
Polegar, mesmo sem saber, é o professor que ensina: não existe sucesso com drogas, nem glamour na prisão, nem vítimas que gostem de ladrão. Claro, oportunidade ele merece, como todos merecem a tal chance na vida. Lancemos o olhar inteligente sobre o tema, afastando a miopia social da nossa frente.

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