Percival de Souza
Resultado de um comportamento arrogante e por consequência infeliz, o empresário mimado Carlos Guilherme de Abreu e Lima, fazendo coisas de moleque aos 29 anos, partiu com sua lancha sobre o iatista Lars Grael e o resultado todos já sabem: uma perna decepada, o fim de uma carreira, a dor irreparável em termos pessoais, de familiares e de amigos.
Cacá, apelido do empresário, cultiva a fama, em Vitória, de gostar da violência e ser adepto das libações alcoólicas. Papai correu logo para defender o filhinho, como se ele fosse a grande vítima, e não o iatista mutilado - algo eticamente compreensível partindo de quem, como proprietário de uma corretora falida nos anos 70, trabalhava com letras da finada Coroa Brastel e deu calote em centenas de investidores capixabas.
Em termos formais, trata-se de um caso de lesões corporais graves, que envolve questões ligadas ao Direito marítimo. Evidentemente, todo cidadão tem direito a defesa. Colocados os pesos na balança, vamos assistir doravante, a um embate singular de um lado poder e dinheiro para defender o agressor; de outro, a vítima que encarna a mutilação irreparável, que muda por completo o curso de sua vida.
Nesses tempos em que já se confunde res publica com cosa nostra, o jogo das forças que vamos assistir em torno do caso Lars será, mais uma vez, dos mais significativos. O Direito não oferece respostas para tudo, os mecanismos punitivos também não. Não se aponta culpados para destruição de uma carreira, abalo psicológico profundo, não poder mais praticar o esporte com destreza. São fatores não contabilizados em conta alguma. A falta de ética, que corre em paralelo, também é impressionante, como se tudo não passasse de um jogo burocrático, sem espaço para a palpitação da vida.
Não há mais que falar em monstros para culpados por este e outros casos. Não se deve falar em monstros porque eles são humanos, moldados aos poucos. Os únicos monstros com vida legal neste planeta são o do Lago Ness e o Leti. Nem Escócia, nem Tibet, porque as licenças desses monstros estão concedidas em caráter precário. Por isso mesmo, o mestre Giuseppe Bettiol pregava que as normas do Direito devem ser claramente compreensíveis pelos homens simples das ruas. O Direito, dizia, é uma arte, porque também pertence à criação artística, em seu verdadeiro sentido. Os problemas não podem ser resolvidos com a gente se limitando a fazer caretas e apontado com o dedo. Ou seja: não basta sanear o contagiante; é preciso sanear o contágio, para não criar novos focos contagiantes.
Insisto: o caso Lars é extremamente representativo da sociedade brasileira, esta belíndia (metade Bélgica, metade Índia), porque podemos projetar nos dois protagonistas dessa triste história considerável parte de nossa gente. Podemos até nos identificar com os personagens, senão vejamos. O empresário que causou a mutilação é daquele tipo que acha que pode fazer o que bem entende sem dar satisfações a ninguém. Seu talão de cheques pode funcionar como espécie de abre-te sézamo. Sente-se poderoso, porque envolto pelo manto da impunidade, a tal ponto que não se envergonha do ato praticado, por mais lamentável que ele seja. Observe que biotipo se assemelha ao de tantos outros, e não por mera coincidência.
De outro lado está o cidadão atacado com violência por desrespeito a normas mínimas de convivência com civilização. Pode acontecer com qualquer um de nós: você leva a sua vida dentro de padrões de honestidade, éticos e morais, paga em dia seus impostos e de repente é atingido em cheio, sem ter tempo sequer de recobrar-se da perplexidade. E como fica? Pragmaticamente falando, quem pode mais chora menos. É a lei do cão, que funciona nos presídios e nas ruas. Espero que a partir de todos esses ingredientes o Espírito Santo dê um exemplo à Nação. Se não, o Estado precisará mudar de nome, pois se tornaria obviamente herético.





