Percival de Souza
É como se aquela tiro que atravessou o cérebro do ator de Corpo Dourado tivesse atingido a todos. Porque pode acontecer com qualquer um de nós: estar trafegando por uma estrada, não ter tempo de desviar-se, no escuro, de pedras à frente; parar para ver o que aconteceu e ser atacado de surpresa. Brenner é notícia. Boletins ao vivo são trasmitidos do Albert Einstein. Há casos parecidos que, por acontecerem com frequência, sequer são considerados notícia.
Compreender a violência, então, exige buscar causas e fatores não apenas na história, mas no presente. Ela tem crescido, aliada à brutalidade, e não percebê-la assim acaba se transformando numa espécie de cegueira social. Por um lado, o Estado tem o dever constitucional de dar segurança à população. Mas, por outro, se o crime cresce muito mais do que poderíamos imaginar a falha está na sociedade. Leviatã, monstro bíblico, na modernidade é a criminalidade. A população precisa de eficiência de bons administradores e não de mágicos. A realidade, em vez de encantamento. Esse tema é suficientemente preocupante para ser tratado todos os dias. Observe, porém, que agora que nos aproximamos das eleições de outubro, ele entrará no rol de promessas e prioridades de campanha. Algumas vezes, como realismo. Muitas, como demagogia pura.
A síndrome de Gerson Brenner está aí. Já tivemos outras, como a de Daniela Perez, cuja mãe fez cruzada nacional para forçar o enquadramento de certos tipos de assassinatos na categoria dos crimes hediondos. Em alguns dos nossos principais centros urbanos já foi possível detectar que ao lado dos índices preocupantes de criminalidade existem perigosos fatores adjacentes: 1) apenas cerca de 1/3 das pessoas que foram vítimas de algum tipo de violência registraram queixa na Polícia; 2) cerca de 10% da população não procura a Polícia por não querer qualquer tipo de envolvimento com ela; 3) há um círculo vicioso na realidade das nossas prisões, onde se entra a primeira vez por furto, retorna-se por roubo e no passo seguinte da reincidência o crime praticado é de latrocínio (matar para roubar).
Perceba que há vários atores nesse processo: a organização policial, o sistema judiciário como um todo e a punição através dos estabelecimentos prisionais. Como a reincidência é alta (em São Paulo, por exemplo, atinge patamares acima de 60%), é preciso refazer as contas quando se diz que o preso custa caro. Como estamos mostrando, o que fica caro - e bem caro - para a sociedade é todo essa aparato legal. Mais do que nunca, as responsabilidades precisam ser divididas. Com isonomia.
O ceticismo anárquico em relação à repressão legítima, nas balizas da lei, é perigoso. A rigor, nossa sociedade ainda não aprendeu, por consequência dos anos de chumbo, quando o arbítrio abriu suas asas sobre nós, a estabelecer normas de segurança pública dentro do Estado Democrático de Direito. Depois choramos e nos preocupamos quando a violência chega mais perto de nós, atingindo familiares e amigos.
No caso de Gerson Brenner, constatamos que naquele trecho da estrada onde ele foi atacado os assaltos eram comuns. Os caminhoneiros e condutores de automóveis viviam reclamando. A Polícia proferiu tratar o problemas de forma burocrática e violência não pode ser enfrentada burocraticamente. Não é possível ter policial rodoviário preocupado apenas em ficar escondido para multar, sem assumir a sua condição, dentro da atividade-fim da corporação a que pertence, de polícia das estradas. Servir e proteger não pode ser apenas um slogan, precisa ser uma filosofia de trabalho.
Gerson Brenner recebeu um tiro na cabeça e seu drama comove a todos. Outras vítimas, anônimas, existem por todos os cantos, engrossando as estatísticas que talvez devessem ser escritas em vermelho para - quem sabe? - sensibilizar um pouco mais todos os que poderiam fazer alguma coisa para evitar tragédias anunciadas.





