PERCIVAL DE SOUZA
Sonhos de Natal
Na confusão consumista, o Natal que ontem comemoramos chegou a ser sequestrado pelos shoppings, sem chance de resgate. Para muita gente, Papai Noel tomou o lugar do aniversariante do dia, o que é uma decepção angustiante para os cristãos. No interior de São Paulo, num presídio de segurança máxima, os membros de uma organização criminosa, o PCC - Primeiro Comando da Capital - esticaram no pátio uma faixa com votos de ''um feliz Natal e próspero ano novo''. O que significaria este desejo para quem fez do crime uma profissão e da barbárie implacável uma opção consciente?
Em muitos pontos do País, as crianças fizeram os seus pedidos, mandaram cartas, colocaram sapatos em pontos da casa para receber o presente alimentado pela fantasia dos pais. Como pai é peão do filho e avô é cavalo do neto, na definição de Érico Veríssimo, o momento familiar - que o presidente Lula se diz, agora, preocupado em resgatar - é inesquecível.
Nesse sentido, uma decisão aparentemente polêmica do secretário da Segurança do Paraná, Luiz Fernando Delazari, é pragmaticamente interessante. Ele desistiu, publicamente, de colocar os sapatos na janela, na época de Natal ou em qualquer período do ano, em relação ao propagado sistema único de segurança, que confunde na origem Federação com Confederação. Porque isso depende de investimentos, colaboração orçamentária, integração profissional e de idéias. Como não vinha nem uma coisa e nem outra para o Paraná, Delazari jogou os sapatos, ou - a essa altura - a toalha.
O Governo se fez de desentendido e disse que não sabia disso ''oficialmente'', segundo manifestou-se o Ministério da Justiça. Mas isso não tem a menor importância: na República dos carimbos, selos e estampilhas, vale mesmo o que se diz. É verdade que os escritos ficam, mas no caso, contrariando o provérbio, as palavras do secretário não voaram. Uma segurança, pública, em parâmetros desejáveis, seria um grande presente de Natal para todos. Um presente pelo qual se agradeceria muito. O reconhecimento seria permanente. É um mistério devorador a não superação dessa incompetência que costuma asfixiar a área, tornando vítima a sociedade inteira, num falatório sem-fim, que pretende transformar ficção e devaneios em realidade. Como Einstein já disse, há duas coisas infinitas: o universo e a tolice dos homens.
Delazari desistiu de acreditar em Papai Noel com o saco sempre vazio. Ou furado, como esse sistema nacional. O enigma é mais profundo ainda quando o Governo configura projetos que pretendem transformar o Estado numa grande babá. A babá que diz tudo em matéria de segurança, mesmo dela sabendo pouco. A babá que decide o que e como você deve ler jornal, ouvir rádio, assistir televisão, filmes, peças de teatro e audiovisuais. A babá que pensa e decide por você. A babá que sabe de tudo. Companheiros, o que é isso?





