Bom dia, Crianças

A data - 12 de outubro - pode até ter um lado comercial, mas o dia dedicado às crianças merece uma reflexão. O essencial é invisível para os olhos e só se vê bem com o coração, escreveu Exupèry, o autor do ''Pequeno Príncipe''. Vendo com coração, poderemos compreender melhor o que Cristo quis dizer quando, contra a vontade dos discípulos (que pretendiam impedir que a molecada se aproximasse dele), abençoou as crianças e garantiu que é delas o reino dos céus.
Criança significa ingenuidade, pureza, capacidade de perdoar rapidamente, sem armazenar mágoas ou rancores, sentimentos que nós, adultos, temos grandes dificuldades em alimentar.
É preciso ter em mãos dados suficientes, primeiro, para elaborar o diagnóstico, depois. Existe um tipo de crianças, que não são as nossas, que procuramos tratar com amor e carinho, nem sempre com a sabedoria necessária, mas de crianças que estão no andar de baixo e um dia, ao crescer, vão ameaçar - e como - o andar de cima. Vou usar como base algumas das coisas que vi recentemente, no Rio de Janeiro e em São Paulo, para que pensemos - o leitor e eu - juntos. Os exemplos servem para todos. Primeiro, a criança que vive na rua, com uma ligação que não pode ser chamada exatamente de família. Vejo-as nas ruas paulistanas, dia ou noite, nariz escorrendo, pés no chão, roupas precárias, quase sempre tendo à espreita adultos que administram os pedintes infantis. É triste vê-las colocando na realidade a ficção de Charles Dickens, o menino Oliver Twist perambulando pelas ruas de Londres, e também os ''Capitães da areia'', de Jorge Amado.
As crianças vão crescer, se tornarão pré-adolescentes. Tem gente que inventou, com base não sei no que, que seria possível ''educá-las'' na rua. Não, educar é algo obviamente mais profundo e rua não é sala de aula e nem espaço para formação. Creio que não passa pela cabeça de nenhum de nós a mais remota hipótese de entender que rua é lugar de educação. Para as nossas crianças, não. As teorias ficam para as crianças ''dos outros'', ou crianças sem rumo. Nessa fase, de desenvolvimento precoce em nome da sobrevivência, a crueldade das ruas caminha a passos largos para a criminalidade, para a denúncia anônima por telefone da exploração sexual, quando se pretende aliviar consciências de maneira cômoda. Chega-se, então, à adolescência. A trajetória perversa não permite opções, e a sociedade - da qual todos nós fazemos parte irá cair na real quando se sentir ameaçada em termos de crimes contra o patrimônio e contra a pessoa, para os quais usará o eufemismo semântico ''atos infracionais'', como se isto, apenas isto, pudesse atenuar o terrível drama social. O problema é de hoje, não pode esperar amanhã. A poetiza Gabriela Mistral já escreveu isso. O Dia da Criança deveria ser comemorado todo dia. Com atos, gestos concretos, atitudes.

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