Analfabeto político

  Tudo a ver o ato cívico de hoje – escolher prefeito e vereadores – com o futuro político de cada cidade. O dramaturgo, poeta, romancista e escritor alemão Bertolt Brecht ensinou que o pior dos analfabetos é o político. Ao fazer de conta que não tem nada a ver com isso, o analfabeto específico contribui com o pecado da omissão para não reverter todas as coisas que gostaríamos de mudar. O tema é polêmico e o poder municipal é o mais próximo do povo, embora a cada período eleitoral uma moderna Arca de Noé, repleta de bichos de todos os tipos e tamanhos, desfigure os partidos com composições e fisiologismos aberrantes e déficit moral  O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Sepúlveda Pertence, adverte: ‘‘o financiamento privado, como ocorre hoje, é um investimento que se remunera à custa da corrupção’’. Ele admite que exista um tipo de financiamento que chama de ‘‘legítimo’’. Entende, porém, que é ‘‘falsamente gratuito’’ o financiamento por empresas que ‘‘vivem de contatos com o Estado’’.
  Mas isso nada tem a ver, como pondera outro ministro, Carlos Velloso, vice-presidente do mesmo TSE, a se veicular mensagens do tipo ‘‘não vote em candidato ladrão’’. Porque, argumenta, os políticos precisam ser respeitados: ‘‘há bons e maus, como ocorre em qualquer atividade profissional’’. No Rio de Janeiro, o TER já avisou que candidato que for eleito e não apresentar, no prazo legal, a prestação de contas sobre origem e destino, não será diplomado.
  Esta é uma amostra do clima deste 3 de outubro. Ética e moral pública juntas, é preciso entender, também, o que significa a administração de cada município e sua respectiva casa de leis. É uma delas é o conceito moderno de segurança pública. É a prevenção, em sentido amplo, que passa por investimentos em políticas públicas que servirão de freios de contenção para a ininterrupta proveta do crime.
  Quem lançar os olhos sobre a população carcerária – tema bem abordado em editorial nesta Folha no domingo passado, porque explicitou causas e fatores, origens e conseqüências, participação ou omissão – perceberá que uma das suas características é nunca ter famílias estruturadas. Os motivos são variados. E o cárcere se transformou numa mãe-prisão, que não para de gerar filhos.
  Políticas públicas foram fundamentais para o sucesso do programa Tolerância Zero, em Nova York. Quem investe, colhe frutos. Quem deixa tudo como está, só piora a situação. William Bratton, o então chefe de Polícia, mudou a filosofia do ‘‘sempre fizemos assim’’ para ‘‘como devemos fazer isso’’. Provou-se em NY, e pode ser provado em qualquer outra cidade, que quanto mais sinal de abandono tiver uma comunidade maior será o senso de desordem que atrai criminosos em ação ou em potencial. Cada cidade, a nossa entre elas, está pedindo uma nova chance. Talvez hoje possa ser esse dia.

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