ESCADA DA MORTE

Mundo do crime: cadeia ou cemitério, vaticinou Escadinha, apelido do traficante José Carlos Encina. A definição foi repetida como se fosse um provérbio e, em certos momentos, um conselho que ele mesmo não seguiria. Com dois tiros de fuzil no rosto, Escadinha foi assassinado na manhã de três dias atrás, na Avenida Brasil, Rio.
Famoso, um dos fundadores da famigerada organização criminosa Comando Vermelho, Escadinha fugiu de helicóptero do presídio na Ilha Grande, hoje demolido, numa ação de cinema patrocinada por ele, de dentro, e o cunhado ''Gordo'', de fora. Essa ligação dentro-fora é fundamental para que se entenda o que é um criminoso empedernido e as possibilidades remotas de recuperação.
Estamos falando da realidade, e não de teorias e poesias, evidentemente. Reincidência dominante quer dizer: são sempre os mesmos. E dentro do poderoso círculo com escalas hierárquicas dominantes, para quem está fora é difícil entrar. E para quem está dentro, é mais difícil ainda sair. Assim é que Escadinha, 18 longos anos no cárcere após receber condenação de 51 anos, chegou ao regime semi-aberto, desfrutando de uma ''pensão'' mensal de R$ 15mil. Que brasileiro tem direito a algo equivalente a esse, digamos, ''auxílio-reclusão''? Quer dizer: no círculo do crime organizado, a turma que está de fora ajuda a turma que está dentro e a turma que está dentro ajuda quem está de fora. Faz sentido contábil, então, o nome da nova organização a que Escadinha pertencia: ''Amigo dos Amigos'' (ADA). Mas é claro que ele, na nova fase do semi-aberto (ah, quanta ingenuidade em certas Varas das Execuções Criminais...), não podia receber essa grana toda e nada dar em troca. Escadinha providenciou a metamorfose para inglês ver que a tantos empolga: abriu uma cooperativa de táxis (''Elite Service'') e uma creche para crianças (''Príncipe da Paz''). Assim como em época de campanha político beija e afaga criancinhas, traficante transforma criança em álibi. Investe em ''obras sociais'', e os ''laranjas'' de plantão aplaudem. Uma Bíblia aberta (só em dia de visita), para a cena ser fotografada, também vai bem.
''O medo é fundamentalmente o medo da morte'', ensina o historiador Jean Delumeau. ''O animal pode ser motivado por uma perspectiva agradável muito próxima, mas não conhece a esperança. Assim também o homem antecipa sua morte muito mais que o animal''. Transformação aparente de personalidade providenciada, Escadinha, em sua última ação dissimulada, comprou mais de 200 aparelhos de rádio-transmissores para o Comando Vermelho comunicar-se dentro e fora das falidas prisões. Mas não recebia ''pensão'' regular da rival ADA? Assim, dá para começar a entender o crime: a execução - tiros de fuzil na cara - foi feita em forma de mensagem. Decifre o enigma quem souber o mínimo do círculo da morte e seus - conscientes ou não - prisioneiros.

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