PERCIVAL DE SOUZA
MATANÇA NA NOITE
Os mendigos de São Paulo foram atacados na noite. A golpes de pau, a morte foi eliminando os mal-aventurados, adormecidos sob pedaços de pano que um dia foram cobertores. Outros ficaram gravemente feridos. Espera-se que as investigações esclareçam o absurdo humano.
O palco da matança gira em torno da Praça da Sé, o marco zero da cidade, que abriga nas suas imediações o Palácio da Justiça e a catedral metropolitana. A cidade nasceu ali, num janeiro de 1.954. A civilização morre um pouco mais, nesse mesmo lugar.
Cocteau escreveu que ''cerram-se os olhos dos mortos com doçura e com doçura se devem abrir os olhos dos que vivem''. Nenhuma doçura, mas olhos bem fechados, nas chocantes e grotescas acusações recíprocas entre prefeitura, que deveria olhar pelos desvalidos nas ruas, e o governo, a quem compete a garantia constitucional da segurança. Sobre os mistérios da noite, o escritor Georges Simenon perguntou: ''e se o sol não voltasse amanhã, não é a mais antiga angústia do mundo?''
O historiador Jean Delumeau, que estará em São Paulo e Rio de Janeiro no mês que vem, para um congresso internacional que terá o medo como tema principal, faz a seguinte observação: ''Nota-se com frequência que os bebês não têm medo da escuridão'' e que, ao contrário, ''certos cegos, que não conhecem a luz do dia, são igualmente tomados pela inquietação quando chega a noite, pois o organismo vive naturalmente no ritmo do universo'' Delumeau observa que Shakespeare coloca a noite em suas tragédias em pelo menos 25% das ações. Em ''Rei Lear'', coloca que ''o olho da noite é negro como uma órbita vazia''. Em ''Júlio César'', a noite ''é o arauto da morte''. Assim, segundo Delumeau, ''é provável que o medo da noite dure tanto quanto os homens, assumindo o aspecto - muito evidente ainda hoje - do medo justificado das agressões noturnas''. Observe, para refletir, a importância que a iluminação pública assume nos centros urbanos, provocando o espanto pelos fatos escabrosos que acontecem ''em plena luz do dia''.
Na calada da noite, os mal-aventurados se juntam, procuram se proteger, partilham a pouca comida e não se separam dos seus cães. Entre um abrigo sem o cão e um cão sem abrigo, preferem ficar com o animal. Já está provado que é assim. Há quem os espreite e não os considere gente. Que entende que mendigos e moradores de rua são um incômodo social. Que seria melhor exterminá-los do que ouvir, lá no fundo, a voz da consciência clamando pela caridade e a misericórdia. Que acha essa gente ''feia'', tirando charme de lugar bonito. Que acha normal a intolerância vestir a capa da morte. Que acha ter o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer.
Não houve palavras, ameaças, aviso prévio. Os mal-aventurados não tiveram a menor chance. Foram sucumbindo, um a um, como se agora grande centro urbano pudesse ser campo de concentração.





