PERCIVAL DE SOUZA
CRIANÇAS NA MIRA
É difícil, num domingo como este, Dia dos Pais, falar sobre crianças e adolescentes subitamente na alça de mira de bandidos sequestradores, que em São Paulo passaram a usar vítimas dessa idade para intimidar os familiares e obter mais facilmente o que exigem como resgate. Um amigo meu comprou um utilitário só para transportar o filho. No compartimento de bagagem, vai um cão policial, sempre de focinheira quando fora de ''serviço''. Como reage um pai numa cidade como São Paulo, onde num período de 24 horas três crianças foram sequestradas (duas retiradas de uma perua escolar) e outra, de 12 anos, ficou em cativeiro por setenta dias?
Se a população colabora, fazendo a sua parte, nesse ato coletivo de despojar-se das armas de fogo, os braços do Estado ficam comprometidos, legal e moralmente, a fazer exatamente a mesma coisa no combate ao porte ilegal. Ninguém deve andar armado - ótimo, porque 75% dos assassinatos são cometidos com uso de armas de fogo. Mas o cidadão ficar à mercê do bandido armado, também não pode. Até porque, oportuno lembrar, o bandido olha a tudo isso dentro de outra perspectiva, isto é, as vítimas em potencial não teriam mais como defender-se, mesmo que desastradamente.
O meu amigo ama o filho, quer protegê-lo, e sabe que retóricas ocas são facilmente derretidas pelos ácidos da realidade. Se pudesse confiar no Estado, não teria comprado um tipo de carro só para garantir a integridade do menino. Mas como sabe que brigar com fatos é inútil, tomou as precauções que considera necessárias. Como o conheço bem, sei que ele se sentiria culpado se fosse confrontado consigo mesmo sobre o que poderia ter feito e deixou de fazer. Poupou-se da hipótese.
Os bandidos investem agora na dor da família. A menina de 12 anos, sequestrada quando saía da escola, vai passar o Dia dos Pais em casa. Outras crianças, não. Adultos já sofrem o terrível impacto psicológico do cativeiro doloroso. Que dizer, então, da situação traumatizante de uma criança como esta de 12 anos, resgatada numa ação policial fulminante, que resultou na morte de dois sequestradores? Fazer isso com criança nada tem a ver com devaneios pueris, que podem solidarizar-se mais com o algoz do que com a vítima. Cabe a pergunta: que tipo de gente é esta que não poupa nem uma criança? Haveria um gene do crime? O escritor Matt Ridley diz, em ''Natureza via criação'', que ''ninguém espera encontrar genes que façam pessoas serem assassinas, mas estão sendo achados genes que fazem com que as pessoas fiquem mais inclinadas a reagir a algumas experiências violentamente''. Ridley, que já foi editor de ciências de ''The Economist'', diz que a genética ''não é uma coisa inexorável''. Não é mesmo. O sequestrador, de crianças inclusive, vê a vítima brutalmente, apenas como mercadoria de troca. Dinheiro em formato humano. Nada mais.





