PERCIVAL DE SOUZA
MENTIRAS E VERDADES
A Polícia do Rio de Janeiro adotou um sistema surreal nos bloqueios para averiguar carros considerados suspeitos e seus respectivos ocupantes: placas de identificação de quem promove a blitz, recomendando que se diminua a velocidade, baixar os faróis e acender as luzes internas. ''Para ajudar a população a fazer uma distinção'', disse com naturalidade o chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins.
As placas embutem um fato grave, tratado com naturalidade e forte dose de frieza pelas autoridades do Rio. Se a Polícia de verdade precisa exibir um atestado de autenticidade em forma de placas quando monta um bloqueio, é porque existem bloqueios de mentira. Isso mesmo: bandidos bem armados (tudo contrabandeado ou subtraído de quartéis), usando coletes próprios da Polícia e até uniformes falsos (ou roubados), fazem barreiras (inclusive dentro de túneis, como o Rebouças) e promovem assaltos em massa, coagindo e aterrorizando as vítimas.
E mais: a bandidagem, em especial a do tráfico, organiza comboio de carros roubados e, armada até os dentes, invade os pontos dominados por concorrentes, para tomar o poder, ou retomá-lo, em sinistras carnificinas incorporadas ao cotidiano. São pessoas de altíssima periculosidade. Quer dizer: ''o ser humano contemporâneo muitas vezes está cheio de qualidades, tendo algum acesso à educação formal e às benesses do sistema de seguridade social, mas tais qualificações podem ser socialmente anuladas assim como o hacker bloqueia uma rede informatizada'', como analisa José Arthur Giannotti, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade São Paulo (USP). Não se trata, aqui, de balançar a cabeça para concordar ou discordar. Os bloqueios, falsos ou reais, são um fato. O ser humano, nascido bom e transformado em mau, como disse Rousseau em outras palavras, é personagem central: o bandido e sua ousadia; o traficante e seu poder real; o Estado acuado, transformado em poder apenas paralelo. Esta é a leitura dinâmica das placas policiais de identificação. É como se através delas a Polícia quisesse inspirar confiança: ''acredite, esta é verdadeira''; ''aqui é polícia de verdade e não de mentira''; ''pode parar que você não vai ser assaltado ou morto''.
É uma degradação. Muito apropriado o nome dessa operação: ''Topázio''. Pedra preciosa. Bonita. Mas existem topázios falsos. A inteligência policial não faz como pescador que joga a tarrafa para ver o que fica retido. Ela investe em ações concretas, alvos previamente definidos, tudo de forma profissional e nunca amadora. A placa que pretende atestar a verdade aponta a existência de placas invisíveis da mentira. Constata um drama e, mesmo sem querer, denuncia. E acaba derrubada, mesmo com boas intenções. Pretende, é fato, transmitir tranquilidade. Mas só consegue gerar um efeito oposto: mais preocupação.





