PERCIVAL DE SOUZA
Iceberg do contrabando
O contrabandista Law Kin Chong, finalmente preso em São Paulo e rapidamente levado para Brasília, faz emergir uma série de podres que comandam considerável fatia do crime organizado. Além da tentativa de subornar a CPI da Pirataria, documentada pela TV, ficou evidente que o trono de Law tem um sólido alicerce construído sobre várias instituições. Por isso Law, além de poderoso, era intocável. Como foi preso por uma equipe de policiais federais de Brasília, sem que os paulistas soubessem de nada, à semelhança do que já havia acontecido na Operação Anaconda, os policiais de São Paulo vivem outro clima de mal-estar.
Law, na PF, parecia um lorde inglês, de tão bem vestido. Só o par de algemas destoava da sua elegância e altivez, demonstrando o tempo todo que estava muito seguro de si, enquanto o presidente da CPI, Luiz Antonio Medeiros, ligava seu ventilador acusatório em alta rotação. O caso tem esta face visível e outra, como perigoso iceberg, totalmente submersa. É como nas apreensões sistemáticas em Foz do Iguaçu, fronteira com Ciudad del Este. Tem gente que acredita ser aquele o foco principal da muamba. Não é. O faz-de-conta, bom para gregos e troianos, é completamente irreal para os espartanos.
Poderoso chefão, Law está preso em função de um desdobramento das investigações pela Anaconda. E o que está acontecendo é incrível: o órgão de inteligência da PF, centralizado em Brasília, fez as investigações, recomendando que as operações, acompanhadas pelo Ministério Público Federal e ciência da Justiça Federal, deveriam ser feitas pelo Comando de Operações Táticas (COT), também de Brasília. Deixar de fora os policiais paulistas é emblemático. Os policiais evitaram até viajar de avião do planalto para a planície, evitando qualquer vazamento de informações. Antes disso, alguns presos da Anaconda já haviam sido transferidos da carceragem da PF paulista: o juiz João Carlos Rocha Matos para Brasília; o agente federal César Herman para Goiânia; o delegado Luiz Belini para Florianópolis e a ex-mulher de Rocha Mattos, Norma, para a Penitenciária Feminina de São Paulo. Nem a carceragem da PF paulista ficou acima das suspeitas. Agora, sabe-se das ligações perigosíssimas com autoridades e políticos.
Law raciocina que tudo tem um preço. Só quer saber quanto é para abrir as portas. Agora, os policiais paulistas cogitam colocar seus cargos à disposição, tamanho o embaraço pela situação humilhante. A centralização de operações em São Paulo pela PF em Brasília quer dizer claramente que não se pode confiar em todos, que partilhar as informações é perigoso e que setores do órgão são suspeitos. Em tempos de assepsia, ainda é preciso cortar fundo na própria carne. E isso, a bem da verdade, a PF tem feito. É exemplo para os que preferem varrer sujeira para baixo do tapete.





