PERCIVAL DE SOUZA
Ladrão de plantão
Esse negócio de meter a mão, como se diz vulgarmente, tem várias facetas. A coisa, no Brasil, é cultural. O tenso momento político em nosso País passa pela metástase provocada por cavalheiro não ilustre que, incrustado no Palácio do Planalto, promovia tráfico de influência ostensiva para gerenciar negócios escusos. Afastado o gatuno de cena, resistiu-se a apurar o grau de envolvimento em desdobramentos ainda ignorados, com ameaça singular: se for para mexer nos podres intestinais interligados ao Governo, este reagiria investigando, com o mesmo rigor, podres alheios. É surreal. Como os maus exemplos vêm de cima, um ministro de Corte Superior disse que não confia nos pares que distribuem justiça em escalão hierárquico de segunda instância, que irão examinar casos de eventuais negociatas com habeas-corpus e liminares. Por isso, recorreu ao pedido de aposentadoria para garantir os salários integrais para o resto da vida. Pijama e pronto. O resto discute-se depois.
Nesse quadro, onde estão apenas alguns dentre dezenas de exemplos disponíveis, causou espanto o estranho caso do funcionário público assaltado em plena Via Dutra, no Rio de Janeiro, ficando sem carro, um aparelho de TV 29 polegadas que havia acabado de comprar, aparelhos celulares (a vítima estava na companhia da namorada) e R$ 4 mil em dinheiro. Ele deu queixa na delegacia e dias depois foi pedir uma força no posto de policiamento comunitário da Polícia Militar, onde reconheceu imediatamente como assaltante um dos soldados de plantão. A Inspetoria Geral da Secretaria da Segurança tratou de conferir na casa do soldado e lá encontrou partes do carro roubado, já desmontado, e o aparelho de TV. Sem querer, a vítima foi chamar o ladrão.
Portanto, temos hoje o que se pode fazer, com amparo legal, e o que se faz sem alicerce ético e moral. No primeiro caso, seria oportuno lembrar uma frase de Otto von Bismarck, ex-chanceler alemão: ''Os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis''. No segundo, Balzac pensou profundamente quando disse: ''Ao lado da necessidade de definir está o perigo de se embrulhar''.
Podemos olhar esse caso do policial-ladrão carioca e exclamar: ''É o fim da picada!''. É mesmo, mas muitos fins de picada estão na ribalta, iluminados por holofotes ou secretamente atrás das cortinas. A questão é que tem muita gente apontando o indicador em várias direções enquanto os demais dedos voltam-se contra elas. Se a vítima do Rio foi pedir ajuda contra ladrões e acabou falando com o Ali-Babá, é evidente que assistiu a uma simbiose anormal, pois é impossível fundir Edgard Hoover, o criador do FBI, com Al Capone. O crime do colarinho branco solapa muito mais, sozinho, do que todos os demais crimes catalogados. Vivemos tempos de realidade absurda e necessidade crônica de enfrentar a epidemia das distorções.





