Olhar da ONU

A Organização das Nações Unidas (ONU) possui um escritório no Brasil para assuntos de droga e crime e seu representante, Giovanni Quaglia, apresentou quatro dias atrás um relatório sobre nossa situação. Alguns dados, entre outros, divulgados no Palácio do Planalto: considerável parte dos 30 mil assassinatos anuais tem na droga, para traficantes ou usuários, o pano de fundo; meninos estão sendo vitimados cada vez mais, pagando com a vida as desavenças entre os patrões do tráfico; em muitas comunidades, as pessoas vivem entre ameaças e mortes próximas às suas casas; o Brasil está incluído entre os países com nível de consumo considerado médio; está havendo abuso no consumo de anfetamínicos e ansiolíticos, que provocam dependência.
No dia seguinte à divulgação desse relatório, traficantes e policiais trocaram chumbo grosso, espalhando o pânico em duas favelas próximas a Copacabana, no Rio de Janeiro, onde correria e confronto tomaram conta das ruas durante horas. Ainda na semana que passou, uma menina de 15 anos foi resgatada de um cativeiro pela Polícia, no Guarujá (SP). Ela havia denunciado um traficante e mesmo colocada no frágil programa de proteção a testemunhas foi capturada. Durante uma semana, passou por impiedosa tortura lenta: socos, pontapés, pauladas, dentes quebrados, rosto desfigurado. O algoz marcou um dos pulsos dela com a inicial de seu nome, usando um ferro em brasa, do mesmo jeito que se faz para marcar gado. E dizia: ''vou te matar aos poucos, sua cagueta''.
Segundo o secretário nacional antidrogas, Paulo Roberto Uchoa, 7% da população brasileira já experimentou algum tipo de droga (não só as ilícitas).
Pois bem: é assim que a coisa funciona e é debatida. O olhar da ONU sobre nossa realidade não contém absolutamente nada de novo. Mas, como gostamos mais do chamado ''olhar de fora'', os dados divulgados adquirem uma auréola ''científica'' e podem provocar algum tipo de impacto. Afinal, em São Paulo, por exemplo, as drogas são a causa número 1 dos homicídios e a vingança aparece em segundo lugar, sendo que drogas e vingança andam entrelaçadas. Os defensores da droga (tantos!) preferem fazer de conta que isso não existe.
Criticam a satanização do usuário mas gostam de glorificá-lo. São duas formas de miopia. Discutem com ardor e até xingam na defesa intransigente de suas posições. Não parecem perceber que ambos são míopes. O escritor uruguaio Eduardo Galeano, que está prestes a lançar no Brasil seu novo livro (''Bocas do tempo''), pergunta e responde: ''No fim, o que somos? Tempo que anda. Pés e bocas. Pés a caminhar no tempo, bocas que contam a viagem. Uma viagem feita de muitas histórias, que contam quem somos''. Ele está falando sobre a vida, tentando o ''nós'', como diz, num mundo voltado para o ''eu''. Mas é possível falar sobre droga e vida, aprendendo com as idéias de Galeano. O relatório da ONU escancara a realidade. Bocas do tempo ficam abertas ou fechadas, assinalando nossa passagem. Melhor pensar do que só repetir ladainhas.

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