Fernando & Valdomiro

Quando alguma parte do todo cai, o que fica não está seguro. Não, a frase não foi elaborada para analisar o escândalo da semana - Waldomiro Diniz achacando para os outros e para ele mesmo. É de Sêneca, o filósofo romano. Mas se ajusta ao episódio de Diniz e polêmica sobre onde deve ficar o traficante Fernandinho Beira-Mar. No caso de Waldomiro, veio à tona a farsa oficial sobre o que se gasta em campanhas eleitorais, com os desdobramentos que você pode conferir em outra página. Com a farsa, os discursos sobre moralidade e imoralidade transformaram-se em espetáculo deplorável. No caso de Fernandinho, a periculosidade virou retórica jurídica, inútil diante da realidade.
Mas ambos são drogas, com seus usuários, ou nome que se queira dar, como veremos num exercício de pensamento. A droga ataca o sistema nervoso central e pode provocar dependência. Foi aí que Waldomiro, alucinógeno, também atacou: corroeu moralmente, provocou vínculos de dependência, não exatamente psicológica, e com metástase em forma de dinheiro foi tomando conta de vários organismos. Tal como a droga-entorpecente, possui adeptos e defensores. Sim, os que querem liberar tudo - a droga-corrupção e seus dependentes, que nem precisariam ser criminalizados, porque tudo se faz em nome da política. Tanto num como em outro caso, alguns acham que se fizerem isso escondido, tudo bem, como se pensava que fazia, sem saber que uma fita estava sendo gravada para documentar as maracutaias. Agora, fumar, cheirar ou injetar alguma coisa nas veias, em público, acaba não pegando bem. Pode provocar reações, até de moralistas que costumam posar de vestais e, como se viu no caso concreto, chafurdam na lama do mesmo jeito do que os outros. É Carnaval, sem fantasias.
A rigor, Waldomiro é um traficante que ataca estruturais morais e de costumes do Estado. Suas investidas - criminosas - corrompem, abrem caminhos, sepultam a coerência e fazem nascer o cinismo de proveta. Fernandinho, pelo menos, é um traficante assumido. Todos sabemos que é um bandido perigoso, assassino, torturador. Diniz é um gatuno cara-de-pau, cercado de falsas vestais vitorianas. Aqui chegamos a um ponto interessantíssimo: o Governo do Rio de Janeiro e o Federal estão dizendo, por vias transversas, que algumas leis devem ser mandadas às favas, porque não funcionam. Porque a Lei de Execução Penal, que está em pleno vigor, diz que o preso cumpre pena onde o Judiciário determina, e não o Executivo. A constatação elementar foi feita pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. O Governo do Rio, que morre de medo de um condenado, recorreu ao Superior Tribunal de Justiça. No caso Diniz, muitos não querem sequer que se apure o fatos. Como os bandidos ligados a Fernandinho, ameaçam atacar para se defender. É triste e degradante. Waldomiro e Fernandinho são males siameses do nosso tempo. E ambos possuem mais adeptos do que poderíamos imaginar.

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