PERCIVAL DE SOUZA
É isso aí, companheiro
Não quero ser devorado pela esfinge do Planalto por não saber decifrar os enigmas da política brasileira. Proponho, então, que se pense assim: quem gasta o que não pode numa viagem, devolve o dinheiro de preferência por cheque pessoal e pronto. Se o caso for de nepotismo, pede demissão, proclamando que ética e responsabilidade sempre foram suas marcas pessoais. Por fim, considere que proceder assim é exemplar e dignificante. Agora, se for outro que agir desse mesmo modo, critique áspera e impiedosamente. Ou seja: a regra vale só para você e sua turma. Para os amigos, tudo. Para os inimigos, a lei.
São divagações após a saída de Luiz Eduardo Soares da Secretaria Nacional de Segurança Publica. Disse ele, em sua carta de despedida, que pedia exoneração com ''angústia e convicção'' porque ''a sordidez das manipulações políticas poderia macular nomes honrados e atingir a dignidade do próprio governo''. O ministro da Justiça não lhe deixou opção, depois de vir à tona que Soares havia contratado a mulher e a ex-mulher para trabalhar com ele na Secretaria da qual era titular. Ambas assinaram um documento afirmando que não tinham qualquer tipo de relação pessoal com Soares. Uma delas chegou a representá-lo em encontros oficiais.
Ora, do mesmo modo que rezar não é pecado, embora só para rezar não seja preciso viajar, nunca se pode confundir coisa pública com coisa nossa. Provocado o estrago político, resta saber como andam os rumos da propalada nova fase das propostas de segurança pública. Do que mais gostei (o que é subjetivo) consta o projeto da criação de uma Escola Superior de Segurança Pública na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No mais, passos tímidos, muitas vezes conflitantes com a autonomia dos Estados, porque estes, sim, é que definem o que se faz ou não. A minha receita para não ser engolido pela esfinge cria dificuldade complementar de raciocínio. Prefiro ficar, para escapar, com a parte técnica da questão. Os projetos estão na mesa, gravitam em torno de um plano nacional de segurança. Quem adere, pode receber algum tipo de ajuda. Aí veio uma idéia, com a qual não concordo, de tirar a estrutura policial inteira da Constituição, como se a Carta Magna fosse um entrave para a implantação de certas medidas. Não é tão simples assim. Na hora do vamos ver, cada Estado terá que fazer muito bem a sua parte, e não o Governo Federal. Vejamos: 1-) a prevenção tem sentido amplo, passa por políticas públicas e a concepção aristotélica e tomista: para a prática da virtude, é preciso um mínimo de bem-estar; 2-) o sistema que reprime transgressões a normas de convivência social precisa estar adequado, em material humano e equipamentos, aos tempos modernos.
Conselho para o sucessor de Soares: a sua secretaria é de Segurança Pública. É governo, e não oposição a ele. Lembre-se disso e não se imagine corregedor da humanidade. Porque você não é.





