PERCIVAL DE SOUZA
PCC DO GUGU
Liberato colocou no ar, pelo seu programa de TV, duas pessoas encapuzadas, que se identificavam como membros de uma facção do crime organizado, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Os dois ameaçaram de morte apresentadores de outras emissoras, um padre e um vice-prefeito. Uma farsa inconsequente, leviana, irresponsável. Deu no que deu, como se sabe. Vamos ao pano de fundo da ópera-bufa, nesta semana em que o bandido ''Funchal'', este sim do PCC, o matador do juiz-corregedor Antonio Machado Dias, de Presidente Prudente, foi preso num condomínio de luxo em Angra dos Reis.
O episódio Gugu foi exemplo típico de banalização da violência. Pior: quis apresentar aquilo como se fosse jornalismo, uma reportagem. Não, não é. Trata-se apenas de um embuste. Mas é assim que muita gente trata o crime, o organizado inclusive. Descompromissados com a verdade costumam brandir idéias alucinadas, candidatas ao contraste provocado pelo choque térmico da realidade. Veja o caso da tentativa de desarmar: o lobby das armas falou mais alto, o projeto foi desfigurado, não se teve coragem de promover um referendo (é ótimo falar em nome do povo, mas consultá-lo é considerado perigoso). Os magistrados, que julgam os desvios das regras de conduta social, começam a fazer cursos de tiro em todo o País, pleiteando ainda o direito de posse da poderosa pistola ponto 40, até aqui privativa das Forças Armadas. Se juiz quer andar armado e aprender a dar tiro, imagine só os cidadãos comuns.
Esses ingredientes explosivos, que marcam o Brasil atual, foram tratados com deboche pelo programa que teve uma parte ilegal, quando pseudos-bandidos fizeram ameaças e apologia do crime. Na ilegalidade dominical, a palhaçada foi tratada como se fosse uma grotesca ''pegadinha'' a mais. Envolveu produção, veículo especial em local de gravação pré-designado (os fundos da própria emissora) e a absoluta falta de ética de não informar ou consultar os ameaçados a respeito. A seguir, dada a repercussão da mentira, começou o jogo de empurra para definir culpados pelas irresponsabilidades. A corda, como se sabe, tende a arrebentar do lado mais fraco. Segundo a lei processual penal, quem de qualquer modo contribui para o crime incide nas mesmas penas a este cominadas. Vamos aguardar.
O crime, em sua forma mais intimidativa, não pode continuar sendo tratado com as idéias trancadas em gaiolas de raciocínio ou importadas em sarcófagos. Há quem garanta que certos filmes da TV são os causadores da violência no mundo. Como o ator Charles Bronson morreu recentemente, muitos devem estar mais tranquilos. É lógico que a TV comete erros estéticos e éticos, como no caso Gugu, mas daí a ser bode expiatório exclusivo vai numa diferença de anos-luz. De qualquer modo, bandido é bandido, jornalismo é jornalismo. Interesse público exige responsabilidade; ética e legislação não podem ser atropeladas. Que o sorriso acrílico desta tarde seja mais leve.





