CIÚMES DE PRIMO

Se você pensa que tem respostas para tudo, de repente pode ser surpreendido por uma pergunta inédita. Por quê? os jesuítas sempre querem saber. Perturbado por tantas indagações alguém quis saber o motivo e a resposta veio em forma de nova pergunta: por que não?
Se você quiser respostas para tudo no Direito Penal, esqueça. Inclusive se você for bacharel atuando numa área onde se acredita que seja possível saber de tudo. O que se pode é descobrir autoria de crime, provar culpas, promover julgamentos e propor punições. Isso é uma coisa. A alma humana é outra.
O caso do rapaz de 20 anos que matou o próprio primo em São Paulo é um desses que nos intrigam. Conviviam desde crianças, o tio ajudava a pagar despesas e estudos. Então, por quê? De Victor Thiago, 22 anos, restaram cinzas depois que seu corpo, após receber dois tiros, queimou dentro do porta-malas do carro que dirigia. O primo Fabrício Henrique de Oliveira, 20 anos, ateou fogo. Até chamuscou-se na hora que acendeu o palito de fósforo no corpo de Thiago, encharcado de gasolina. Por quê? As respostas foram surpreendendo: ciúmes de uma situação financeira melhor, raiva porque o rapaz já havia saído com sua atual namorada, e vontade de ganhar dinheiro extorquindo o tio, pai de Thiago, que sempre foi seu protetor. Thiago estudava direito, estava no segundo ano. Entre artigos, parágrafos e conceitos, não poderia imaginar as profundezas insondáveis da alma.
A propósito, Mark Twain escreveu: ''Se recolheis um cachorro esfomeado e o conduzis à prosperidade, ele não vos morderá. Eis a diferença entre o cão e o homem''. Na filosofia de Aristóteles, ''não há nada que envelheça tão depressa como um benefício''.
Fabrício deu em Thiago o beijo de Judas. Atraiu-o para uma emboscada, pedindo uma carona, ao lado de um amigo, que também se relacionava com a vítima. Fabrício ainda pediu para dirigir o carro e Thiago, como um cordeiro inocente, sentou-se no banco do passageiro, enquanto o primo assumia o volante e o parceiro ficava no banco de trás, ambos prontos para o bote da serpente. Não está escrito nos códigos o que acontece com os corações quando eles são dominados pelas emoções negativas, como o ódio, o ciúme, a ambição desenfreada. Ao destruir a vida do primo, Fabrício acabou com a sua, também, e aniquilou as duas famílias. Para fazer tudo isso, imaginou-se muito inteligente. Foi ao enterro de Thiago, identificado pela arcada dentária, e chorou lágrimas de réptil anfíbio. Cara-de-pau, foi dito vulgarmente. Não: cara gélida, glacial, insensível, determinada. O choro na prisão não foi de arrependimento. Chorou porque tudo foi descoberto. É diferente.
A sociedade produz pessoas assim. Frutos do meio, das circunstâncias, da escala de valores ou da ausência deles. O caso dos primos contém uma lição social perturbadora. Mas poucos vão querer aprender. Registre-se. Afinal, as palavras voam. Os escritos ficam.

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