NAVALHA NA CARNE

À semelhança do que já houve recentemente no Paraná e no Ceará, a Polícia Federal mandou uma equipe especial para o Rio de Janeiro e prendeu, sem tiros, nem choro nem vela, vários agentes que eram serviçais do crime organizado, metidos em venda de passaportes falsos, contrabando, lavagem de dinheiros e trambiques múltiplos.
O singular disso tudo é que foram federais prendendo federais, sem o menor espaço para espírito de corpo e protecionismo, peculiares em muitas outras instituições. Ao fazer auto-amputação, a PF deu um exemplo que navalha afiada pode cortar na própria carne, o que só faz engrandecer a Polícia da União, que não precisou de ninguém de fora para corrigir as mazelas em seu próprio meio.
É tentador varrer o lixo humano para baixo dos tapetes. Inverte-se a situação, ao estilo Kafka: o criminoso infiltrado é tratado como ''colega'', o honesto encarado como ''mau caráter'' e se confunde aposentadoria compulsória com providências urgentes. Estava no Rio, quando isso aconteceu, convidado para uma palestra na Escola da Magistratura do Tribunal de Justiça. No curto tempo que fiquei na cidade, aconteceram essa investida dos federais de verdade (e fiquei sabendo que ações semelhantes serão desenvolvidas em vários pontos do País, mobilizando policiais de fora para evitar qualquer tipo de constrangimento) e a brutal execução do diretor do presídio Bangu 3, em plena Avenida Brasil. Se a PF demonstra que é possível eliminar o péssimo odor de fatias podres, fica aberto o caminho para o raciocínio sobre limpeza moral em toda parte. Como na execução do diretor: assim que ele saiu do presídio, pessoas de dentro informaram o bando assassino, que usando capuzes e armas de grosso calibre, metralhou-o impiedosamente, como se fosse cena de ''O Chefão''. O episódio contém muito lixo sob tapetes: pombos-correio no presídio, entre eles familiares e certo tipo abominável de advogado; o inconformismo em endurecer regras disciplinares que criam obstáculos para o tráfico de cocaína e uso de telefones celulares e muitas outras coisas mais, todas profundamente lamentáveis. A longa fila para conseguir um emprego de gari no Rio faz sentido simbólico: é preciso mesmo promover uma imensa faxina moral, não só lá, como em toda parte, onde muita gente diz uma coisa e faz outra, completamente diferente, posando de santo e vivendo em trevas. Discursos e práticas em antagonismo. Enganações.
No seu ''Elogio da Loucura'', Erasmo de Roterdam, e não o Dias ensinou que ''não se deve duvidar jamais de que os vícios e os crimes dos súditos são infinitamente menos contagiosos do que os do senhor''. Se imaginarmos uma escala hierárquica da corrupção, perceberemos isso muito claramente, mesmo porque as prisões estão repletas, como bem sabemos, mais de súditos do que de senhores, embora as avenidas abertas no Código Penal sejam exatamente as mesmas. A navalha na carne dói. Mas, também sabemos, é necessária.

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