CLIQUE DA MORTE

Tinha 36 anos, era bom fotógrafo, nasceu na nossa Londrina mas viveu a maior parte da vida na mineira Borda da Mata, onde foi enterrado. Tomou um tiro de revólver. O assassino não gostou de vê-lo empunhando o que considerou uma arma perigosa: a câmera. Assim morreu Luiz Antônio da Costa, fotógrafo da revista ''Época'', último mártir da imprensa brasileira. Caiu ensanguentado, morrendo aos poucos, sobre duas faixas de pano, que ficaram vermelhas. Numa estava escrito ''pace'', paz em italiano. Na outra, uma frase de Bertold Brecht: ''Ninguém pode se por acima das lutas sociais porque ninguém pode se por acima da humanidade''.
Mas a gente pode morrer por causa de um clique? Como se viu com o Luiz Antônio, sim. Foto é fato: não se pode falar em paz promovendo conflitos e a frase de Brecht manchada de sangue lembra que o dramaturgo alemão também recomendou: ''Não fazer o mal a si próprio, nem a ninguém''.
Mas que clique foi este? Luiz estava num acampamento de sem-teto, um terreno invadido em frente à fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo. O clique revela coisa que de modo geral os jornalistas preferem não contar: a forma como são tratados nesses lugares por pessoas hostis, vendo figuras brandindo armas brancas de grande tamanho, em tom tanto ameaçador quanto provocativo.
A cerca de cinquenta metros do acampamento, houve um assalto a posto de gasolina. Disseram até que Luiz teria sido morto porque havia fotografado um dos ladrões. Negativo: não havia ângulo; no meio da multidão, não poderia perceber assalto nenhum e na câmara fotográfica que levava não havia registro dessa cena. Aqui entra o clique da morte: os ''seguranças'' do acampamento, que andam até com cães da raça rotweiller. Clique: os jornalistas tratados como inimigos e desrespeito; os fugitivos do assalto podendo transitar lá dentro com desenvoltura. Clique: o ladrão foi se refugiar no acampamento. Clique: ele entrou, confabulou, saiu e matou. Clique: realidade, não suposição. Clique: o ladrão foi fotografado com a arma na mão. Clique: a imprensa elucidou o fato e não a Polícia. Clique: tem gente que prefere ignorar o sangue inocente derramado em nome de uma ''causa'' maior. Clique: tem gente que não quer ver a realidade. Clique: é socialmente óbvio o direito à moradia e muito mais que signifique dignidade humana. Clique: é curioso sem-teto liderado por gente que tem carro, vai dirigindo ao acampamento e possui casa na cidade. Clique: a violência é sedutora, porque muitos a combatem de um lado e a consideram legítima, de outro. Mas que clique matou, ou que cliques provocaram a morte de Luiz Antonio da Costa? Não sei. Espero que se descubra. Clique: não gostaram do que ele viu e fotografou. Clique: jornalista, defensor da sociedade e inimigo dos que agem nas sombras. E você, leitor, tem todo o direito de saber o que aconteceu e acontece. Mas saber de tudo e não apenas de algumas partes.

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