PERCIVAL DE SOUZA
Falar e Fazer
A transformação da sociedade, que sempre se diz desejar, esbarra na nossa vontade de realmente fazer a nossa parte indispensável nesse processo teórico, utópico ou restrito. O professor Denis Lerrer Rosenfield, titular de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cita as ''Confissões'', de Santo Agostinho, extravasando as tribulações de sua alma, para relatar a mudança de vida do convertido (no caso, ao cristianismo) e consequentes atos de confissão. Para entender melhor: ao proclamar que daqui para frente tudo será diferente, é preciso haver coerência, inclusive intelectual. Diz Rosenfield: ''o que está em jogo é a (in) coerência de novo credo e a sua aceitação pelos novos simpatizantes''.
A colocação é oportuna diante do novíssimo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculando o número de assassinatos em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro às condições socioeconômicas do País. Na síntese dos pesquisadores Waldir Lobão e Daniel Cerqueira, se a concentração de renda diminuísse em apenas 2% e os investimentos em segurança pública crescessem em 10%, os assassinatos diminuiriam na ordem de 76%. Em números concretos, o trabalho de Waldir e Daniel projeta: se nada mudar, no Rio os homicídios subiriam dos 9.365, registrados em 2.002, para 15.555, no final de 2.006. No caso de São Paulo, aumento de 26%: de 17.018 em 2.002 para 21.499 em 2.002. A pesquisa embute dados sobre governos fechando os olhos para a violência policial e as chamadas ''esquerdas'' terem virado as costas para as polícias, permitindo que elas se transformassem em bagaço. Dedo na ferida: ''A tragédia da criminalidade nasce com o empobrecimento do debate acerca da política de segurança pública mais adequada''.
É por tudo isso que o professor gaúcho de filosofia cita Agostinho e fala do nosso País: ''Estamos vivendo uma situação paradoxal, pois a conversão não vem acompanhada da adoção clara e sem ambiguidades do novo credo, embora, na prática, o novo governo já siga os seus rituais''. Somando o que ele observa com as informações do Ipea, poderemos entender melhor os números que colocam nosso País como dono da 3 população do planeta e ao mesmo tempo palco de 9% das mortes que se cometem no mundo. Podemos adicionar ainda os medos dos brasileiros, concentrados segundo o Ibope na violência (28%), no desemprego (13%), no sequestro (10%) e no zunir dos projéteis perdidos (9%). A propósito, o economista Ib Teixeira, que já foi professor da Fundação Getúlio Vargas, analisa que a violência está ligada ao critério custo-benefício, ou seja, ''se a pessoa tiver uma sensação de que não será punida vai se sentir mais propensa a praticar um ato de violência''. Portanto, a sensação de que tudo acabará em pizza, a impunidade, é fator direto do binômio crime-violência. Temos que mudar, sabemos e dizemos, pregamos e teorizamos. Mas quem vai nos mudar?





