PERCIVAL DE SOUZA
TIM, UM ANO DEPOIS
Faz exatamente um ano, amanhã. Indignados, constrangidos e desmoralizados, os moradores da Favela Cruzeiro esgotaram todos os recursos para tentar uma reação das autoridades diante dos bailes públicos com escancarado consumo de drogas e sexo na rua para quem quisesse ver. Tem gente que gosta disso. Tudo bem, desde que seja muito longe. Assim é fácil.
Como a omissão foi explícita, lá foi atendendo a pedidos o jornalista Tim Lopes cumprir o seu papel. Revelar aquelas cenas pela TV e ver no que dava. A missão não foi concluída. Surpreendido pela canalhada, Tim foi conduzido a um matadouro, para ser sangrado aos poucos, sofrer bastante e depois ainda ser queimado. Um bandido acendeu o cigarro nas brasas humanas.
De lá para cá, absolutamente nada mudou. Quando o presidente Lula falou, dias atrás, que nossa economia parece ''bicicleta de apartamento'', esse ato de pedalar sem sair do lugar parece ser extensivo a outras áreas brasileiras. Tim foi martirizado e esperávamos reações. Mas pedalamos e não saímos do lugar.
Nos últimos dias, além de não se pedalar para frente, pedalou-se para trás quando o traficante ''Sussuquinha'' saiu tranquilo pela única porta do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Pedalou-se para trás quando se reconstruiu o sofrimento do empresário que tirou a vida da mulher e das filhas, e depois matou-se, psiquicamente fora de controle após um sequestro traumático, de cativeiro prolongado e com tortura. Destruíram a vida do homem nesse episódio. Insistem em pedalar para trás com preocupações mais institucionais do que sociais em assuntos que envolvem a administração da justiça, a organização policial, os estabelecimentos prisionais. Mais pedalada para trás quando se insiste em tratar droga como gente e gente como objeto, na mais absurda inversão de valores, ajudando a mergulhar mais fundo na ausência de regras e normas, a sociológica anomia.
Gostaria que ao menos a execução e o martírio do companheiro e amigo Tim Lopes tivessem valido para tirar as escamas dos olhos. Mas as coisas não mudaram, havendo ainda na cidade maravilhosa essa ópera-bufa na qual um secretário de Estado tem o atrevimento de pretender que a Polícia não atue em determinados lugares para ''proteger as crianças''. É isto: a máscara de benfeitor social para dar um salvo-conduto aos crápulas que fazem do tráfico profissão e do consumo desenfreado um negócio.
''O sono da razão gera monstros'', advertiu Norberto Bobbio. Sonolenta, a sociedade ainda pedala para trás, ou pedala sem sair do lugar, e não foi para isso que Tim Lopes ofereceu a vida. Ele acreditava, sei bem, que poderia pela força de uma denúncia vigorosa mudar o curso das águas. Morreu pensando assim, senão jamais estaria naquele lugar de gente oprimida, dominada por sórdidas e venenosas serpentes humanas. O pior é que quando se fala de caráter, dignidade e cidadania, as peças de reposição são raras.
Tim Lopes partiu e deixou um vácuo terrível.
Saudades, muitas, e dor, ainda, querido amigo.





