PERCIVAL DE SOUZA
FAXINA FEDERAL
A sucuri é uma cobra não venenosa, que chega a ter dez metros de comprimento e tritura os ossos da presa, antes de engolir. Operação Sucuri foi o nome dado pela Polícia Federal a uma ofensiva anti-corrupção, que resultou na prisão de 22 agentes que atuavam na fiscalização da ponte que liga Foz do Iguaçu a Ciudad del Este.
No caso, as presas da Sucuri é que eram venenosas: ser corrupto na aduana é deixar passar gato por lebre, fechando os olhos para a passagem do contrabando e sabe-se mais lá o que. Portanto, é um comportamento nefasto, prejudicial à sociedade e nocivo à instituição policial, que deu uma fantástica lição: ela mesma investigou, planejou a profilaxia exemplar, que pode resultar na amputação de seus quadros, e prendeu os suspeitos e acusados. Nota dez para o exemplo de como não permitir que corporativismo seja sinônimo de vergonhas ocultas sob tapetes. O episódio revela claramente como nossa região de fronteira é calcanhar de Aquiles em termos de segurança fragilizada. A rigor, não é a região de Foz o maior problema das nossas fronteiras, que ainda têm, para exemplificar, pontos nevrálgicos em Guaíra/Guayrá, Ponta Porã/Pedro Juan Caballero, Corumbá/Puerto Suárez e muitos outros. A cada momento em que se cobra, como nós cobramos inutilmente há anos, nesta coluna, que armas, drogas e munições abastecem o crime organizado de nossos centros urbanos, questiona-se o conceito, corroído, de preservação do que convencionou-se chamar ''ordem''. O quadro dominante é de desordem, mas como em Bizâncio estão preferindo discutir firulas e não o concreto, a realidade.
A propósito, no expurgo federal feito na ponte que liga Brasil ao Paraguai, anote-se que dois dos 22 agentes presos deveriam estar na rua há muito tempo. Reincidentes específicos em matéria de corrupção (um chegou a ser exonerado), foram reconduzidos a seus cargos por força de determinação judicial. Não vou entrar no mérito da questão, mas assinalo que nenhum do povo jamais entenderá como a própria Polícia põe para fora e uma decisão judicial manda voltar.
Na fronteira, onde prolifera também a indústria dos carros roubados revendidos para seus legítimos donos (isso mesmo, vítima tem que pagar para ter seu veículo de volta), existem chefões mafiosos com várias especialidades e ramificações. Depois de percorrer nossa região de fronteira por várias vezes, posso dizer que na maioria dos trechos ela, aberta e vulnerável, é terra-de-ninguém. A máquina policial usa algumas vezes a designação para um lugar desses como forma de castigo e, diz a regra dos intestinos institucionais, nunca é bom, moralmente falando, manter alguém nesse tipo de lugar por mais de dois anos.
De qualquer modo, seria ótimo que outras sucuris saíssem por aí, sem receios ou constrangimentos, para banir do convívio aqueles híbridos que fingem estar de um lado, mas sempre preferem o outro, triturando seus ossos e retirando-lhes as máscaras da hipocrisia.





