PERCIVAL DE SOUZA
O novo tempo
O governador do Paraná assumiu o governo do Estado prometendo dar início a um novo tempo. Roberto Requião, como antecipamos aqui na coluna, anunciou uma faxina moral nas Polícias e a implantação de nova política de segurança, já que a atual, segundo ele, é massa falida.
Esse novo tempo, que todos desejam, tem metas teóricas ambiciosas. Aliás, a semântica e a semiologia tem duas palavras gregas para exprimir perspectivas diferentes sobre o tempo. A primeira, ''krónos'', é o tempo material que passa, fluindo de maneira inexorável. A segunda, ''kairós'', é o tempo repleto de acontecimentos, para a gente agarrar com força, fazendo acontecer. ''Krónos'' é o tempo que passa, cronometrado. ''Kairós'' é o tempo que fica, como se estivesse grávido para o nascimento de coisas novas e boas.
Assim, evidente que os paranaenses querem um ''kairós'' de Requião, e não o ''krónos'' de quatro anos de mandato que se esvaem.
Deixo de lado qualquer consideração partidária ou ideológica, porque passado é o que ficou e futuro é o que pretendemos construir. A rigor, há um denominador comum entre as palavras do presidente Lula e o discurso inaugural de Requião. Quem é contra ao fim da fome, do desemprego, da miséria, da exploração, da ofensa e da humilhação da exclusão? Sendo assim, claro que Requião ganha solidariedade geral ao anunciar, também, combate intransigente à banda podre da Polícia e tornando-a visível e confiável nos bairros, ruas e escolas. Claro que todos também desejam a metamorfose e não a simbiose Polícia-crime, água e azeite.
O assunto vai levá-lo a segurar cumulativamente as rédeas da segurança pública. A decisão embute um significado aparentemente estranho: se ele vai fazer isso em seus primeiros tempos, é porque ainda não conseguiu encontrar alguém com o figurino para navegar nessas águas turvas. Triste e preocupante de um lado, de outro essa decisão é alentadora. Ninguém aguenta mais o palavreado oco, construído no vácuo, de tanta gente que aceita ser secretário da Segurança sem entender absolutamente nada da matéria.
De palpite em palpite, improviso em improviso e amadorismo com narizes empinados, chegamos ao ponto em que nos encontramos. E nisso que Requião pode acertar, se conseguir transformar palavras em ação. É que ele, como chefe do Executivo, está com a mão na massa. Pode, portanto, articular as indispensáveis políticas públicas, investindo forte no social, e exigindo que a Polícia faça rigorosamente a sua parte.
Veja o emblemático blá-blá-blá do Rio de Janeiro: palavras e palavras fora da realidade e o banditismo mandando com armamento pesado, drogas e balas perdidas. Que discurso estéril pode explicar isso? Não foi por outro motivo que Márcio Thomaz Bastos, ao assumir o cargo de ministro da Justiça, considerou intolerável a força da criminalidade contemporânea.
Requião tem em mãos a fórmula certa: havendo membros podres nas Polícias, que sejam amputados sem contemplação. A banda saudável precisa ser mais prestigiada, porque trigo não é joio. Mantenha a bússola regulada, Requião, e siga em frente. É exatamente por aí.





